Carros roubados eram legalizados em SE

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

A Polícia Civil deflagrou na madrugada de on-tem uma operação para prender 40 acusados de integrar um esquema que adulterava carros roubados em outros estados, usando documentos do Departamento Estadual de Trânsito de Sergipe (Detran/SE). A chamada "Operação Transformers" envolveu mais de 200 agentes, escrivães e delegados de várias unidades, para cumprir os 40 mandados de prisão expedidos pela Justiça e outras 60 ordens de busca e apreensão. Até o fechamento desta edição, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) confirmou que 37 pessoas já tinham sido presas e três ainda estavam foragidas.

O órgão não divulgou os nomes dos acusados, mas também confirmou que, entre os presos, estão despachantes, comerciantes, funcionários públicos, um agente da própria PC e um sargento reformado da Polícia Militar. A maioria dos mandados foi cumprida em Aracaju e nas cidades de Carmópolis, Itabaiana, Itabaianinha e Neópolis. Apenas três pessoas foram presas em outros estados, sendo uma em São Paulo (SP) e duas nas cidades de Feira de Santana e Xique-Xique (BA). A exceção destes três, todos os outros acusados foram levados para a sede do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), no bairro Capucho (zona oeste), onde foram interrogados durante o resto do dia.

De acordo com a polícia, o grupo é acusado de roubar os veículos fora de Sergipe, principalmente na Bahia e em São Paulo, e, ao trazê-los para cá, falsificar toda a documentação e a identificação de cada veículo, de forma que ninguém desconfiasse de sua origem. Para isso, até os chassis eram modificados. "Existiam braços da organização que eram responsáveis pelos roubos dos veículos. Esses veículos eram repassados para outras pessoas envolvidas, que faziam toda adulteração, tanto do chassi do veículo, dos vidros e da documentação. Depois dessa ‘transformação’, esses veículos eram repassados para uma equipe de rua e vendidos no comércio como se fossem veículos legais, causando prejuízo para muita gente", explicou o porta-voz da SSP, Sérgio Freire.

A tática de ‘transformar’ – ou ‘esquentar’, na gíria policial – os veículos roubados em legais fez os policiais batizarem a operação com o nome do desenho "Transformers", criado em 1984 pela empresa americana Hasbro, a partir de brinquedos produzidos no Japão. Na história, que já foi exibida no Brasil pela Rede Globo e virou um filme produzido por Hollywood em 2007, carros eram transformados em robôs e se formavam para combater outros robôs alienígenas que pretendiam dominar o Universo.
Durante as buscas e apreensões, os policiais civis apreenderam 15 carros, um ciclomotor, alguns caminhões, cargas suspeitas de roubo, uma pistola, uma espingarda, centenas de documentos e R$ 7 mil em dinheiro, possivelmente usado para pagamento de propinas. Os veículos devem passar por uma perícia, a fim de confirmar se os seus chassis foram mesmo modificados pela quadrilha. Eles também foram levados para a sede do Cope e passarão por exames de perícia.

Documentos foram apreendidos no Detran

Alguns dos mandados de busca e apreensão foram cumpridos na sede do Detran, no Jabotiana, onde duas equipes da Civil chegaram antes das 6h e lá ficaram por quase três horas. Ninguém foi preso e o atendimento não foi interrompido, mas a movimentação da polícia chamou a atenção de funcionários e usuários. Nos escritórios do Detran, centenas de documentos de veículos considerados suspeitos foram apreendidos. Isto porque, segundo o delegado Jonathas Evangelista, diretor do Cope, os veículos adulterados pela quadrilha eram registrados no Detran depois de passarem pela modificação.

"Aqui no Detran, nós apreendemos procedimentos relacionados à emissão de CNH e à liberação e licenciamento de alguns veículos, os quais podem ser roubados, terem passado por vistoria e recebido um novo documento. Tudo isso está já sendo investigado há algum tempo", afirmou Jonathas, à saída do Detran.  O diretor também esclareceu que a participação de funcionários ligados ao órgão ainda está sendo apurada, mas que a dos policiais já vinha sendo acompanhada pela Corregedoria da Polícia Civil. "As investigações também vão continuar para que possamos identificar os veículos oriundos de roubos e os compradores, que acreditamos não ter conhecimento da origem dos carros", disse Evangelista.

Investigação interna – O diretor-geral do Detran, Edgard Motta, acompanhou a ação dos policiais civis e depois falou aos jornalistas. Segundo ele, a "Transformers" é desdobramento de uma investigação interna aberta em abril de 2014, a partir de denúncias feitas à Ouvidoria da repartição, que em seguida encaminhou o caso à Polícia Civil. "A nossa administração está dando toda a colaboração, porque o Detran precisa voltar às paginas da imprensa com credibilidade. O órgão está a disposição para ajudar a polícia na conclusão desta investigação. Os dados documentais estão sendo colhidos para serem analisados e apresentados na conclusão do inquérito", disse ele.

De acordo com Edgard, providências administrativas foram tomadas para combater práticas irregulares no Detran, sobretudo na emissão de documentos de habilitação e registro de veículos. Entre as medidas, está a realização rotineira de auditorias. "As auditorias são as previstas na legislação. Nós temos um controle interno, para fazer o acompanhamento de melhoria dos produtos e da produtividade documental. Temos o cumprimento das legislações federais e estaduais e tudo está sendo feito consideravelmente", garante o diretor.

Motta destaca ainda que, somente após a comunicação oficial sobre o inquérito da Polícia Civil, o Detran abrirá os processos administrativos para avaliar a atuação de servidores envolvidos na denúncia. "Ainda não temos os detalhes sobre a investigação nem como se dava a ação dessas pessoas. Entretanto, assim que formos notificados pela polícia, atuaremos conforme manda a lei da administração pública", concluiu.
Esta foi a segunda operação policial que envolve o Detran sergipano. Em 29 de janeiro, a Polícia Federal apreendeu documentos e computadores na sede do órgão e em quatro residências ligadas ao ex-deputado federal Bosco Costa (Pros), que foi diretor-presidente da repartição entre 2011 e 2014. As diligências fazem parte da "Operação Voto Dirigido", deflagrada para investigar a denúncia de que Carteiras Nacionais de Habilitação (CNHs) teriam sido distribuídas ou facilitadas ilegalmente em troca de votos, durante a campanha eleitoral de 2014. Na ocasião, Bosco chegou a ser preso e autuado por porte ilegal de arma, mas liberado em seguida. A PF ainda não divulgou os resultados da investigação. (Gabriel Damásio)

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