Milton Alves Júnior
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Cerca de cem famílias que integram o Movi-mento Nacional de Luta Pela Moradia promoveram na manhã de ontem a interrupção parcial da rodovia estadual SE 100, nas proximidades do município de Pirambu. O ato que durou mais de três horas foi gerado após agentes da Polícia Militar, acompanhados de oficiais de justiça, terem se deslocado até o Acampamento Luzia, a fim de realizar a reintegração de posse do terreno que pertence à União. A decisão judicial causou indignação das famílias que reagiram por não ter onde morar. Irredutíveis à ordem de retirada, mais de 250 pessoas invadiram a pista e criaram bloqueios ateando fogo a palhas, pneus, resto de móveis e troncos de coqueiro. Durante o ato foi gerado um congestionamento superior a três quilômetros nos dois sentidos da via.
A mobilização generalizada teve início por volta das 5h quando os oficiais militares e judiciais tentaram convencer as famílias a desapropriarem o terreno sem o uso da força de segurança. Diante do desespero dos pais que não esperavam pela retirada, crianças se desesperaram e várias mulheres necessitaram de atendimento médico. Com o propósito de evitar maiores impasses e acidentes, a Companhia de Polícia Rodoviária Estadual (CPRv) decidiu criar novos bloqueios e desviar os veículos que dirigiam-se ao Sul do estado pela cidade de Santo Amaro das Brotas, ou para a região norte de Sergipe passando pelo município de Japaratuba. Pela Assessoria de Comunicação da PM, foi informado que a manifestação adotou uma postura pacífica em sua totalidade, sem nenhum registro de conflito.
Preocupado com o destino das famílias, o também ocupante Israel Silva Filho lamentou a ocorrência e clamou pela ajuda dos governos. Segundo ele, não houve comunicado que na manhã de ontem existiria a ordem de saída do ambiente. "Ninguém aqui foi informado que a gente teria que sair e buscar outro lugar para morar. Se nós estávamos aqui nesses anos todos é porque não temos casa própria, auxílio moradia, nem dinheiro suficiente que dê para alugar um cantinho para os nossos filhos. Somos da paz e não queremos briga com ninguém, apenas a gente quer que o prefeito, o governador ou a presidente não deixe que a gente vá para debaixo das pontes", afirmou. Por volta das 10h algumas famílias já haviam deixado o acampamento e adotaram rumo incógnito.
Ainda de acordo com a Assessoria de Comunicação da Polícia Militar, logo no início da manhã os moradores irregulares mostraram-se contra a determinação e articularam um princípio de mobilização densa. "Mas nada que pudesse comprometer o andamento da reintegração de posse. Tudo ocorreu de forma pacífica graças ao bom trabalho desenvolvido pelas corporações militares, como também pelo serviço qualificado dos oficiais de justiça que iniciaram os diálogos junto aos líderes do Acampamento Vitória", disse o capitão Robson Donato Pinto. Ao contrário do que geralmente ocorre nessas missões de reintegração, desta vez os antigos invasores não mostraram interesse em retornar, em poucos dias, ao mesmo ambiente onde por mais de cinco anos instalou-se a comunidade de moradores sem teto.
Apelo – Mãe de duas filhas e grávida de um garoto, a desempregada Maria Lúcia dos Santos, 31 anos, declarou depender financeiramente de artigos artesanais para sobreviver. Sem família para acomodar os filhos mais o marido, ela também compartilhou com o pleito apresentado por Israel Filho. "Precisamos de um cantinho para proteger nossos filhos. Ainda tem gente idosa aqui que está doente e também não pode ficar andando quilômetros e mais quilômetros procurando um lugar coberto e que proteja a gente. Agora sem a nossa casinha não temos mesmo onde ficar e alguém precisa ajudar a gente", declarou. Grande parte das famílias seguiu até o centro de Pirambu na esperança de conquistar uma ajuda do prefeito Elio Martins. Até o final da tarde de ontem o auxílio moradia não havia sido concedido.


