Gabriel Damásio
Taís da Silva dos Santos, 21 anos, operária, viúva e mãe de uma menina com 1 ano de idade, é a primeira vítima mortal da onda de assaltos e arrastões contra passageiros do transporte coletivo da Grande Aracaju, que já contabilizou 894 ocorrências neste ano, segundo dados do Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Rodoviário de Aracaju (Sinttra). A passageira foi assassinada às 5h10 de ontem na Avenida Euclides Figueiredo, bairro Santos Dumont (zona norte), dentro de um ônibus da empresa Tropical que fazia a linha Marcos Freire I e III/DIA. Nele, estavam três homens que embarcaram no Terminal de Integração da Maracaju e, minutos depois, anunciaram o assalto – dois deles estavam com armas escondidas na cintura.
O motorista Aloísio Barbosa, que conduzia o ônibus, disse que toda a ação durou cerca de um minuto, tempo que os bandidos levaram para pegar os telefones celulares, bolsas e outros pertences dos 26 passageiros que estavam no coletivo, em sua maioria mulheres. Segundo o relato, ninguém reagiu ao roubo, mas algumas vítimas gritaram assustadas. Os bandidos desceram assim que as portas abriram e seguiram a pé, em direção ao bairro Soledade. Mas um deles, antes de descer e sem nenhum motivo aparente, apontou a arma para Taís, que estava sentada perto da porta central do veículo, e acertou-lhe um tiro no peito.
A ação ficou registrada nas imagens do circuito interno de TV do coletivo, as quais foram entregues à Polícia Civil e divulgadas no começo da tarde. Elas mostram ainda que, após o disparo, os passageiros se desesperaram e fugiram por outra porta, com medo de serem baleados, mas voltaram para socorrer a jovem, ao perceberem que ela estava caída e já perdia muito sangue. Mesmo com os passageiros, o motorista seguiu logo para o Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), onde a vítima morreu depois de dar entrada no pronto-socorro.
Ao reconhecer o corpo de Taís no Instituto Médico-Legal (IML), a mãe, Rosineide da Silva dos Santos contou que ela morava na casa dos sogros, no bairro Santos Dumont, e, todos os dias, costumava pegar o mesmo ônibus para ir trabalhar na fábrica de autopeças Yazaki, em Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju), onde era auxiliar de produção. "Meu marido levava nossa filha no ponto de ônibus todos os dias às 4h30 da madrugada e só saia quando ela entrava no ônibus. Você sai para trabalhar, mas não sabe se volta, os bandidos estão soltos e ninguém faz nada", lamentou a mãe, abalada. O corpo da jovem foi enterrado ontem à tarde no Cemitério São João Batista, no Castelo Branco (zona oeste). O marido dela, Fábio da Conceição Santos Filho, 19, foi morto por policiais em 27 de maio, durante perseguição ocorrida na própria Euclides Figueiredo.
O crime revoltou os motoristas e cobradores de ônibus, que reclamam da sequência de assaltos que vem sofrendo ao longo dos últimos anos. O Sinttra considerou o episódio "assustador e lamentável", que cria ainda mais insegurança. No final da tarde, a entidade decidiu não fazer nenhuma paralisação, mas sim pedir nova audiência com o secretário da Segurança Pública, Mendonça Prado, e cobrar mais providências da polícia. Já o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Aracaju (Setransp) lamentou a morte "com grande pesar" e confirmou que "as imagens internas do ônibus do momento do ataque, junto com o boletim de ocorrência prestado na delegacia, foram entregues à polícia especializada".
Por meio da assessoria, a SSP informou que o crime é investigado pela Delegacia de Repressão aos Roubos a Ônibus (DRRO) e seu delegado titular, João Martins Cunha, ouviu depoimentos de familiares da vítima e várias testemunhas, durante todo o dia de ontem. A equipe também analisa as imagens gravadas no momento do assalto e traça algumas linhas de investigação, a partir das informações que já foram levantadas. Uma das principais é de que o assassino supostamente já conhecia a moça, já que a arma foi apontada somente para ela. Sobre os assaltos, a secretaria disse, desde o início da gestão, que a Polícia Militar aumentou o número de abordagens aos coletivos e a própria DRRO foi reativada para investigar os assaltos, o que chegou a provocar uma queda no número de ocorrências entre julho e agosto deste ano.


