A devastadora avalanche que desceu pelos contrafortes das serranias do maciço do Espinhaço, e transformou em um mar de lama o rio Doce, não tem, ainda, quantificados os seus efeitos catastróficos, mas, já se sabe que é o maior desastre ambiental ocorrido no Brasil.
A empresa, agora tão em evidência, causadora da calamidade é a Samarco, um dos tentáculos de um conglomerado que se especializou em devastar o patrimônio natural do Brasil: a Vale, que era, até quando encurtou o nome, depois de privatizada, a grande mineradora Vale do Rio Doce. Para os aquinhoados compradores da empresa, na época a segunda maior do país, talvez, tenha sido mais difícil a operação de marketing que resultou na redução do seu nome, do que a própria negociação, quando se fez a transferência, do governo, para a iniciativa privada. Os recursos vieram quase todos do BNDES. A quantia irrisória apurada com a venda, logo comprovaria uma transação escancarada na sua dimensão de lesa-pátria, quando a mineradora ostentou lucro superior ao valor pago pela compra, ocorrida dois anos antes. Seria a eficiência da empresa privada que se revelaria sobre o quase sempre paquidérmico gerenciamento estatal?
No caso específico, sem que se queira entrar no conflito ideológico entre as visões deturpadas e desatualizadas do Mercado que tudo resolve e corrige, e do Estado, monstro devorador que destrói e rouba, o que ficava óbvio, era o lamaçal de suspeitas sobre um negócio mais parecido com generosa doação do que a transferência correta, para um grupo privado, de um patrimônio público, em troca do valor monetário por ele efetivamente representado.
A privatização da Vale incluiu, também, as gigantescas jazidas minerais que formavam, na época, quase 50 % das reservas minerais então conhecidas no país. Tudo isso, disfarçado sob o eufemismo de concessão pública.
O que a Vale tem feito, até agora, é explorar esse portentoso, todavia finito patrimônio nacional, de forma predadora, irresponsável, e até criminosa, como estão a comprovar mineiros e capixabas, vítimas diretas da catástrofe, e o quadro, muito mais grave ainda e quase irreparável, da biodiversidade destruída. A vida no rio Doce levará uns dez anos para voltar ao que era antes da onda de lama, de dejetos e produtos tóxicos, que desceu das minas de ferro da Vale, operadas de forma absolutamente incompatível com as normas de segurança e ambientais, e causou, também, mais de vinte mortes.
O crime está consumado. E o que acontecerá agora? A Samarco será multada, fará um acordo com o Ministério Público para tentar recuperar o que é visivelmente irrecuperável.
A nossa presidente andou sobrevoando o lamaçal da Vale, reuniu-se com os dois governadores de Minas e Espírito Santo, ao que parece, não fez mais nada do que as providencias rotineiras de socorro. Poderia ter falado ao país anunciado ações que compensassem a desídia dos órgãos fiscalizadores, principalmente, do Departamento de Produção Mineral, que parece cúmplice do desleixo da Vale. A presidente poderia ir mais longe ainda, iniciando providencias para retirar da Vale a responsabilidade e a posição estratégica; a primeira, que ela não tem, e a segunda, que não ocupa como deveria.
Mas a nossa presidente não consegue ultrapassar a linha entre a inépcia e a mediocridade, dando um passo à frente, para chegar a ser, pelo menos, uma governante sofrivelmente medíocre.
Enquanto isso, a Vale reuniu uma frota de caminhões que transportavam combustíveis, apagou dos tanques o nome INFLAMÁVEL, e no lugar escreveu: ÁGUA POTÁVEL. E a população experimentou o gosto da água com gasolina.
Será que na nossa Constituição, nas nossas leis ordinárias, não existiria alguma disposição legal para que a Vale retorne, sem ônus, ao controle do Estado, ainda que seja para depois privatizá-la a um preço justo? Ou, pelo menos, que sofra uma intervenção corretiva, até que liquide o imenso passivo que acumula em relação à nação brasileira?
Não há nada que possa ser feito por justiça, por respeito ao povo brasileiro, para livrar o país da lama pegajosa da Vale?
Por que o Sr. Murilo Ferreira, presidente da VALE, ainda não está numa Penitenciária?


