Avenida é fechada durante protesto

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

A ponte de acesso entre o bairro Santa Maria e o Conjunto Orlando Dantas (zona sul de Aracaju) foi bloqueada na manhã de ontem durante cerca de uma hora. Foi um protesto promovido por famílias sem-teto que integram a "Ocupação Nasce a Esperança" e estão instaladas há cerca de nove meses em um terreno na comunidade Ponta da Asa, próximo ao final de linha do Santa Maria. As cerca de 400 famílias ocupantes do local cobraram a construção de casas populares e reclamaram da ordem de reintegração de posse do terreno, já expedida pela Justiça e cujo cumprimento está marcado para o próximo dia 25.

Um grupo dos sem-teto iniciou o bloqueio em cima da ponte, colocando pedaços de madeira e galhos de árvores atravessados na pista. Em seguida, eles atearam fogo no bloqueio, formando uma grande coluna de fumaça que impedia a visão de um lado para outro da ponte. A passagem de veículos também ficou impedida e um grande congestionamento se formou na Avenida Alexandre Alcino, uma das principais vias do Santa Maria. Enquanto isso, os manifestantes erguiam faixas, cartazes e até uma foice, gritando palavras de ordem com pedidos por moradia digna e críticas à Prefeitura de Aracaju, ao Governo do Estado e até ao Poder Judiciário.

De acordo com Jadson da Conceição, o ‘Buiu’, um dos líderes da ocupação, a área pertence a uma empresa do ramo industrial, mas já foi reivindicada por outros quatro donos diferentes. No entanto, ela foi ocupada em agosto do ano passado, quando os primeiros barracos de lona, madeira e papelão foram erguidos ali. Desde então, não houve qualquer negociação ou acordo com as autoridades, nem mesmo a feitura de um cadastro das famílias instaladas na ocupação. "Não teve cadastro. A única coisa que teve foi uma reunião na Defensoria Pública, que foi agendada com a Prefeitura e com o Estado, mas nenhum deles foram. Não teve avanço, mas nós queremos alguma posição do Estado e da Prefeitura, pra que eles olhem por nossas famílias", apela ‘Buiu’.

As famílias que ocupam o terreno ergueram barracos de lona, madeira e papelão no local, vivendo em meio às péssimas condições de vida. Tanto na ocupação quanto no protesto de ontem, há a presença de muitas mulheres, idosos e crianças. "Só querem despejar a gente de lá. Todo mundo aqui é cidadão necessitado, porque se não fosse, não estaríamos lá. Devemos ter direito a uma moradia digna, e essa que está lá, embaixo da lona, não é a moradia que queremos. As condições lá são muito precárias e nem tem um banheiro digno. É criança com micose, tudo doente, porque fica mexendo na terra", queixa-se a desempregada Márcia Cristiane, que mora com dois filhos pequenos na ocupação.

Algumas das faixas mostradas durante o protesto pediam a concessão de um auxílio-moradia aos sem-teto. No entanto, a maioria dos participantes do ato exigia que o próprio terreno desocupado fosse entregue às famílias e usado na construção de casas populares. ‘Queremos ficar na terra, no próprio local, porque esse terreno não tinha dono nenhum, estava abandonado há mais de 30 anos. Era desmanche de veículo, desova de cadáver, mulher estuprada naquele local… a polícia tinha trabalho de entrar ali. Pode olhar que é uma área cheia de mato e que com a gente lá ficou bem mais seguro, mais tranquilo. Nós queremos ficar no terreno", argumenta o líder Jadson.
Apesar do fogo e de algumas manifestações mais inflamadas, não houve incidentes. Duas equipes do 1º Batalhão de Polícia Militar (1º BPM) acompanhou a manifestação à distância, pois o comandante das guarnições conseguiu a garantia de que os organizadores encerrariam o protesto e liberariam a ponte às 8h30. O acordo foi cumprido. A manifestação teve o apoio de movimentos ligados ao PSTU, partido de ultraesquerda, como a CSP-Conlutas e o Movimento Não Pago.

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