Não há nada de natural na ruína de um prédio de 24 andares. Muito menos, no centro da maior cidade da América Latina. Para tamanha tragédia ocorrer, fazendo tantas vítimas, é preciso reunir uma série de condições escandalosas. É preciso, antes de tudo, haver gente desesperada, disposta a correr o risco de quatro paredes precárias para ter um teto sobre a cabeça e um lugar para chamar de seu.
O edifício Wilton Paes de Almeida, no largo do Paissandu, foi engolido pelo fogo na madrugada da última terça-feira, após uma explosão no 5º andar – há a suspeita de que o incêndio esteja ligado a um botijão de gás, e rumores sobre a discussão de um casal. Mas o fato concreto, incontestável, é que a construção não reunia as condições indispensáveis para abrigar quem fosse, e as autoridades estavam cientes do risco.
O prédio que desabou no centro de São Paulo abrigava 146 famílias ou 372 moradores. Um inquérito instaurado pela Promotoria estadual, em 2015, constatou a obstrução de corredores e rotas de fuga, onde acumulavam lixo e material inflamável. E, no entanto, nenhuma providência foi tomada.
A verdade pura e simples é que o poder público jamais encarou o déficit habitacional observado nas grandes cidades como um problema a ser enfrentado. Tragédia consumada, prefeito, governador, e até o presidente da República, todos lamentam e se apressam em tirar o corpo fora, cegos para o verdadeiro problema, alheios ao drama dos trabalhadores sem teto, esquivando-se, em suma, às próprias responsabilidades.


