O Jornal do Dia publica, sempre às quartas, uma série de artigos assinados pelo jornalista Antonio Passos. São textos ambientados nos anos de formação de uma empolgante cena musical sergipana, nos quais Passos relata o que viu e viveu de perto, no calor do momento.
***
Mergulhando no clima dos anos 1960 e 70, desde os primeiros dias da última década do século XX, tem feito apresentações nos palcos aracajuanos mais uma banda da veia blues/rock. Estamos falando da Crossroads.
Se em muito a trajetória da Crossroads se assemelha à de outras bandas locais, um fato a diferencia, atribuindo à banda uma dose maior de enraizamento. Trata-se da presença de Genaro (guitarra), um músico que em um determinado momento resolveu adotar um estilo de vida tipo "bluesman".
Rock e Acarajé – Natural de Salvador, foi por lá que, durante a adolescência, Genaro começou a executar os primeiros acordes ao violão. Um fato, porém, funcionou como divisor de águas: no início da década de 70 ele ouve pela primeira vez um disco do Cream. Troca o violão pela guitarra elétrica e inicia uma profunda admiração pelo guitarrista Eric Clapton.
De guitarra em punho passa a se entrosar com quem falava a mesma língua. Aproxima-se da banda Mar Revolto e torna-se frequentador do Teatro Vila Velha, onde assiste a ensaios de Gilberto Gil e Pepeu Gomes. Em 72, recorda, "resolvi cair no mundo".
Pampas e Clapton – Genaro inicia sua caminhada talvez buscando, inconscientemente, as encruzilhadas dignas de um "bluesman". O sul é sua primeira direção. Conhece o litoral de Santa Catarina ao Rio Grande do Sul e passa temporadas errantes pelo Uruguai, Paraguai e Argentina.
Tomando rumo em direção contrária, passa por São Paulo – onde tenta sem sucesso fazer um curso de música – e volta a Salvador. Em 75, começa a trabalhar com o pai, mas, uma surpresa o aguardava.
Um belo dia, indo resolver um negócio no Hotel do Carmo (na ladeira do Carmo), encontra-se cara a cara com o seu ídolo Eric Clapton, hospedado no local e pouco conhecido dos baianos na época, conta Genaro. Chega a trocar algumas poucas palavras com o ídolo, com a ajuda de um tradutor.
Aracaju, Jazz e Crossroads- Entre a guitarra e outros bicos chega Genaro, em 86, a Aracaju. Forma, então, ao lado de Alexandre (sax) e Steven (vibrafone), um grupo dedicado ao jazz, que, por quatro meses, se apresenta nas noites aracajuanas.
Sentindo a necessidade de desenvolvimento técnico, volta naquele mesmo ano a São Paulo, onde passa sete meses fazendo o curso de guitarra, na Academia de Música José Biancardi. "Foi um período de durezas e alegrias", relembra. Costumava estudar uma média de dez horas por dia e fazer apenas uma refeição, o que era compensado por momentos inesquecíveis como, por exemplo, o dia em que foi apresentado a Jim Hall.
Em 87, de volta a Aracaju, Genaro passa a sobreviver dando aulas de guitarra e começa a sondar a possibilidade de formar um grupo dedicado ao blues e ao rock dos anos 60 e 70. Surge, em decorrência, o grupo Crossroads, pelo qual já passaram os músicos Mercinho (baixo), Emerson Olivier (baixo) e Cruz (guitarra), até chegar à formação atual, com Marcos Odara (bateria), Crânio (baixo) e Murilo (voz).
Duas encruzilhadas- Além da banda Crossroads, Genaro, como ele mesmo diz, está diante de outra encruzilhada. Dessa vez, algo inesperado que o jogou temporariamente em cima de uma cama. Após sentir fortes dores e se submeter a exames, o nosso "bluesman" foi informado de que carrega uma hérnia de disco e precisa ser operado com brevidade, assim que forem resolvidos pequenos problemas cardíacos e estabilizada a taxa de glicemia. Mas Genaro avisa: "Assim que eu sair dessa, a Crossroads voltará para a estrada".
Publicação original em:
Folha da Praia, Aracaju, 30 de maio a 05 de junho de 1992.


