Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
Deus não julga conforme os preceitos humanos. Aliás, vivemos tempos em que as pessoas não se contentam em julgar, apenas. Cresce a onda perigosa e assustadora para se condenar, muitas vezes sem a devida oportunidade para a defesa e para o perdão. E como o Papa é pop, já dizia a canção: "o pop não poupa ninguém". Assim o foi nos últimos dias com o Papa Francisco, após fazer uma declaração para o documentário "Francesco", de Evgeny Afineevsky: "Eles são filhos de Deus e têm o direito a uma família. O que é preciso fazer é criar a lei de união civil. Assim, eles são protegidos legalmente".
A repercussão, ao passo que foi positiva e encarada como um gesto de humanidade para quem tem outro tipo de orientação sexual que não as convencionais, mas também despertou distorções e até acusações as mais infundadas e raivosas possíveis. E não é a primeira vez que isso acontece com o Sumo Pontífice e também não foi a primeira vez que ele falou sobre o assunto, com verdade e caridade.
Partindo da premissa salientada pelo Papa Francisco em vários de seus pronunciamentos, ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus. Ser cristão implica ser coerente e ir além dos julgamentos e da preguiça e do comodismo de não se aprofundar no conhecimento do outro. Mergulhar em seu íntimo e entendê-lo: "Devemos antepor a misericórdia ao julgamento e, em toda e qualquer situação, o julgamento de Deus sempre se realizará à luz de Sua misericórdia" (2017, p. 19).
Veja por exemplo o tratamento que é dado aos pobres. Em Audiência Geral do dia 3 de junho de 2015, Francisco nos conscientiza que um gesto de atenção e cuidado para com os mais necessitados não pode se resumir a um gesto social vazio e muitas vezes cênico. Para ele, a atenção sincera para com eles, antecipa o justo julgamento de Deus.
Por isso também, ele critica o falatório, inclusive dentro da Igreja: "(…) se queremos trilhar o caminho de Jesus, mais do que acusadores devemos ser defensores dos outros diante do Pai" (2017, p. 22).
Ainda sobre a questão da orientação sexual, disse o Papa em outra oportunidade: "Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?" Mais edificante do que julgar uma pessoa é rezar por ela. Por mais miseráveis que sejamos, devemos nos esforçar para ser esperança, sinal de alegria para o outro, seja ele quem for ou as escolhas que faz.
A verdade é que vivemos encerrados em nós mesmos, ocupados e distraídos com nosso ego e sentimento de autopreservação. Incapazes de percebermos que nos encontramos a partir do encontro com o outro. Difundindo somente o que é bom e bem: "O perdão pela injustiça sofrida não é fácil, mas é um caminho que a Graça torna possível" (2017, p. 35).
O mundo está tomado por males de nosso tempo: consumismo, culto da aparência e colonizações ideológicas, nos adverte o Papa Francisco. Precisamos urgentemente aprender com nossos erros e sermos capazes de mudarmos as nossas vidas e positivamente, sob pena de adoecermos, morrermos prematuramente e até matarmos indiscriminadamente. E viver, afirma o Santo Padre "(…) é sujar os pés pelas estradas poeirentas da vida e da história" (2017, p. 47).
Complicado por natureza, o ser humano complica tudo e se fecha para a Graça. Julgar e condenar se transformam numa suicida zona de conforto, que dissemina ódios, negacionismos, injustiças sociais, corrupção e desumanidade, muitas vezes travestida no cinismo de autoridades e "homens de bem".
Amar sem medida sempre será o caminho para a concórdia e isso custa caro, às vezes até a nossa própria vida. Viver sob a hoste do julgamento e da condenação é antecipar sua própria sentença, que, via de regra, costuma ser mais cruel com quem não sai do armário de algoz.


