Um Narciso relido
Obra da psicanalista francesa Colette Soler traz à tona pertinente debate sobre os usos da própria imagem no mundo contemporâneo e suas consequências no mal-estar na civilização
Quais Narcisos habitam em cada um de nós? Esta é a questão levantada pela psicanalista francesa Colette Soler na obra Um outro Narciso, publicada pela Aller Editora. Num mundo saturado pela cultura da imagem, das selfies, da body art e das intervenções cirúrgicas, o livro apresenta uma revisão do conceito de narcisismo e levanta a pergunta: como foi possível imaginar que a psicanálise reduziria o narcisismo dos sujeitos?
Além de reler os mitos de Édipo e de Narciso, Soler se debruça sobre o conceito lacaniano de escabelo, concluindo que é preciso declinar o narcisismo no plural, posto que ele não se reduz ao amor pela própria imagem. De forma sagaz e peculiar, a autora afirma que os desejos e as pulsões se manifestam como autoafirmação e despertam, por consequência, sentimentos como inveja e ciúmes.
Estes, efeitos de linguagem, estão, em nossa cultura, ligados ao narcisismo e remetem àquilo que não temos, ao que nos é tomado, ou àquilo de que somos excluídos, gerando rivalidade e competição entre os indivíduos, como se o outro tivesse à sua disposição um gozo que me é negado. Para fundamentar a tese, a autora apresenta referências históricas, teóricas e clínicas.
Um outro Narciso é, assim, um convite a refletir sobre a complexidade de um conceito nada pacificador, que pode gerar efeitos reprováveis e muitas vezes punidos pela sociedade e pela religião. Num contexto em que as redes sociais nos incitam à autoexposição e ao confronto entre a imagem de nós mesmos e a imagem de milhares de outros, aparentemente sempre mais felizes do que nós, isto é, sempre gozando mais do que nós, resta nos indagarmos: existirá algum outro ofício, além da psicanálise, à altura de sustentar o mal-estar sempre presente na civilização e nas diversas culturas?
Obra da psicanalista francesa Colette Soler traz à tona pertinente debate sobre os usos da própria imagem no mundo contemporâneo e suas consequências no mal-estar na civilização
Quais Narcisos habitam em cada um de nós? Esta é a questão levantada pela psicanalista francesa Colette Soler na obra Um outro Narciso, publicada pela Aller Editora. Num mundo saturado pela cultura da imagem, das selfies, da body art e das intervenções cirúrgicas, o livro apresenta uma revisão do conceito de narcisismo e levanta a pergunta: como foi possível imaginar que a psicanálise reduziria o narcisismo dos sujeitos?
Além de reler os mitos de Édipo e de Narciso, Soler se debruça sobre o conceito lacaniano de escabelo, concluindo que é preciso declinar o narcisismo no plural, posto que ele não se reduz ao amor pela própria imagem. De forma sagaz e peculiar, a autora afirma que os desejos e as pulsões se manifestam como autoafirmação e despertam, por consequência, sentimentos como inveja e ciúmes.
Estes, efeitos de linguagem, estão, em nossa cultura, ligados ao narcisismo e remetem àquilo que não temos, ao que nos é tomado, ou àquilo de que somos excluídos, gerando rivalidade e competição entre os indivíduos, como se o outro tivesse à sua disposição um gozo que me é negado. Para fundamentar a tese, a autora apresenta referências históricas, teóricas e clínicas.
Um outro Narciso é, assim, um convite a refletir sobre a complexidade de um conceito nada pacificador, que pode gerar efeitos reprováveis e muitas vezes punidos pela sociedade e pela religião. Num contexto em que as redes sociais nos incitam à autoexposição e ao confronto entre a imagem de nós mesmos e a imagem de milhares de outros, aparentemente sempre mais felizes do que nós, isto é, sempre gozando mais do que nós, resta nos indagarmos: existirá algum outro ofício, além da psicanálise, à altura de sustentar o mal-estar sempre presente na civilização e nas diversas culturas?