A morte e a morte de Zé Fernandes

 

* Rian Santos
Voz isolada na acanhada 
imprensa local, eu de
nuncio o abandono das esculturas do projeto Caju na Rua há anos. Após duas edições colorindo a capital sergipana, as peças em fibra de vidro foram abandonadas sob sol e chuva, à mercê de depredações e vandalismo. Uma lástima!
O trabalho de artistas da estirpe de um Zé Fernandes merecia mais atenção da Prefeitura de Aracaju, mas ninguém levantou a voz em defesa do patrimônio público. O resultado envergonha a vista. A memória das artes visuais Serigy foi largada ao Deus dará. 
Crime maior, no entanto, é cometido ainda agora. A Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emsurb) parece acreditar que a caligrafia singular de nossos artistas não faz nenhuma falta e resolveu tratar as esculturas assinadas por verdadeiros talentos como reles peças decorativas. Já em ação, um tal Everaldo Andrade dos Santos foi contratado para fazer o que bem entendesse com o trabalho alheio.
Ignorância tem limite. Não é papel da Prefeitura de Aracaju patrocinar a segunda morte de Zé Fernandes. Caso a direção da Emsurb não saiba de quem se trata (gestores com a sensibilidade de Lucimara Passos não tropeçam em qualquer esquina), segue abaixo o resumo da ópera, junto a uma pergunta inquietante: O prefeito Edvaldo Nogueira, que conviveu e confraternizou com o artista, estaria ciente?
O último mestre da pintura sergipana – Quando sou convidado à casa de um amigo, logo percorro as paredes com os olhos. Tenho a esperança de encontrar, nas cores e traços eventualmente à vista, a confirmação de nossa afinidade. Um quadro de Fábio Sampaio, por exemplo, comunica imediatamente a disposição para a experiência repleta de plugs da vida contemporânea. E, também por isso, é que nos entendemos – anfitrião e abelhudo declarado.
Em minha peregrinação visual pela intimidade dos outros, no entanto, Zé Fernandes é o único ponto pacífico, quase uma unanimidade. Há na paleta de cores primárias e nas formas simples, composições quase rústicas, assinadas pelo artista plástico, algo de familiar e maravilhoso para todo sergipano mais ou menos educado.
Outro dia, batendo perna pelo bairro São José, olhei pela janela de uma casinha de vila e identifiquei na sala escura, sobre um arranjo de flores de plástico, uma pequena tela assinada pelo dito cujo. Em essência, aquele trabalho era o mesmo de um painel gigantesco, ostentado ali perto, em uma agência do Banese. No hall dos edifícios, residências, espaços públicos e consultórios médicos da aldeia, as madonas primitivas do artista figuram nítidas, onipresentes.
Zé Fernandes é o último Mestre da pintura sergipana. E também o mais dado. Se J Inácio e Leonardo Alencar permanecerão sempre vivos na sensibilidade coletiva, ninguém nunca se pronunciou em seus próprios termos de maneira tão clara e direta quanto Fernandes, a ponto de ser ele próprio reconhecido em qualquer esquina da cidade, por força da personalidade expansiva e, sobretudo, dos panos riscados.
Feliz do talento consagrado em missa de corpo presente. Mais das vezes, o exercício artístico é puro calvário. Essa alegria, entretanto, a vida não deve a Zé Fernandes. Sob qualquer aspecto, um artista realizado.
* Rian Santos é jornalista.

* Rian Santos

Voz isolada na acanhada  imprensa local, eu de nuncio o abandono das esculturas do projeto Caju na Rua há anos. Após duas edições colorindo a capital sergipana, as peças em fibra de vidro foram abandonadas sob sol e chuva, à mercê de depredações e vandalismo. Uma lástima!
O trabalho de artistas da estirpe de um Zé Fernandes merecia mais atenção da Prefeitura de Aracaju, mas ninguém levantou a voz em defesa do patrimônio público. O resultado envergonha a vista. A memória das artes visuais Serigy foi largada ao Deus dará. 
Crime maior, no entanto, é cometido ainda agora. A Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emsurb) parece acreditar que a caligrafia singular de nossos artistas não faz nenhuma falta e resolveu tratar as esculturas assinadas por verdadeiros talentos como reles peças decorativas. Já em ação, um tal Everaldo Andrade dos Santos foi contratado para fazer o que bem entendesse com o trabalho alheio.
Ignorância tem limite. Não é papel da Prefeitura de Aracaju patrocinar a segunda morte de Zé Fernandes. Caso a direção da Emsurb não saiba de quem se trata (gestores com a sensibilidade de Lucimara Passos não tropeçam em qualquer esquina), segue abaixo o resumo da ópera, junto a uma pergunta inquietante: O prefeito Edvaldo Nogueira, que conviveu e confraternizou com o artista, estaria ciente?

O último mestre da pintura sergipana – Quando sou convidado à casa de um amigo, logo percorro as paredes com os olhos. Tenho a esperança de encontrar, nas cores e traços eventualmente à vista, a confirmação de nossa afinidade. Um quadro de Fábio Sampaio, por exemplo, comunica imediatamente a disposição para a experiência repleta de plugs da vida contemporânea. E, também por isso, é que nos entendemos – anfitrião e abelhudo declarado.
Em minha peregrinação visual pela intimidade dos outros, no entanto, Zé Fernandes é o único ponto pacífico, quase uma unanimidade. Há na paleta de cores primárias e nas formas simples, composições quase rústicas, assinadas pelo artista plástico, algo de familiar e maravilhoso para todo sergipano mais ou menos educado.
Outro dia, batendo perna pelo bairro São José, olhei pela janela de uma casinha de vila e identifiquei na sala escura, sobre um arranjo de flores de plástico, uma pequena tela assinada pelo dito cujo. Em essência, aquele trabalho era o mesmo de um painel gigantesco, ostentado ali perto, em uma agência do Banese. No hall dos edifícios, residências, espaços públicos e consultórios médicos da aldeia, as madonas primitivas do artista figuram nítidas, onipresentes.
Zé Fernandes é o último Mestre da pintura sergipana. E também o mais dado. Se J Inácio e Leonardo Alencar permanecerão sempre vivos na sensibilidade coletiva, ninguém nunca se pronunciou em seus próprios termos de maneira tão clara e direta quanto Fernandes, a ponto de ser ele próprio reconhecido em qualquer esquina da cidade, por força da personalidade expansiva e, sobretudo, dos panos riscados.Feliz do talento consagrado em missa de corpo presente. Mais das vezes, o exercício artístico é puro calvário. Essa alegria, entretanto, a vida não deve a Zé Fernandes. Sob qualquer aspecto, um artista realizado.

* Rian Santos é jornalista.

 

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