Melodia melancólica

A humanidade no horizonte da peste.

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A seu modo, todo mundo reagiu à pandemia, ainda em curso. Um encontrou Jesus, voltou a praticar yoga. Outro virou alcoólatra. Homem de letras, obediente à própria natureza, Carlos Cauê deu vazão ao que faz de melhor e desatou a escrever sobre a peste.
Nos clássicos do gênero, desde Camus e Defoe, até Saramago, a escala do relato abarca a dimensão coletiva da tragédia, sempre beirando o épico. Cauê, no entanto, preferiu se ater ao horizonte modesto da convivência doméstica. A decisão reverbera em uma série de acertos – no tom e na forma destes contos. ‘Sinfonia da desesperança’ é título que sugere um concerto grandioso, cheio de drama. Mas emociona mesmo como uma suíte de Fred Andrade, uma melodia breve, melancólica.
As circunstâncias permeiam cada conto, naturalmente. Por vezes mais, por vezes menos. Mas é na reação dos personagens, na maneira como cada um lida com a força maior do contágio, que as histórias estão assentadas. Um belo dia, por exemplo, um mendigo desperta numa cidade esvaziada, senhor absoluto de ruas e avenidas. Logo o espanto se transforma em loucura. Em outro conto, um menino é surpreendido com os sintomas mais temidos e acaba isolado no quarto. Ele tem quatorze anos. Sem muito a fazer, se acaba na punheta.
Apesar do andamento comedido, sem a reverberação dos tímpanos, sem o crescendo de cordas e metais, a beleza possível se revela em cada página virada desta Sinfonia… Isso porque a humanidade, ‘strictu sensu’, está sempre no horizonte destas histórias. Quase todos os personagens, aliás, recebem nome próprio. Para dar feição a seus contos, Cauê não recorreu à imaginação, pura e simplesmente. A dor de Dona Olga, Fernando, Rafael, Eduardo, acende a memória recente de cada um dos leitores. E queima. Como só a dor mais real é capaz de arder.

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