Rian Santos
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Todo ponto de vista está ancorado sobre determinado ponto, sempre muito limitado: a cabeça de um alfinete, um mirante de metal e concreto, o pico de uma montanha, uma lembrança, uma ilusão. Para o chefe de cozinha, por exemplo, quase toda a experiência sensível do mundo se dá através do palato. Após destampar uma panela na borda de uma cidade desconhecida, ele sempre associará o perfume, o sabor, o tempero novo ao lugar onde foi tão feliz.
O sanfoneiro Lucas Campelo resolveu se dar ao trabalho de apresentar Sergipe aos sergipanos. Músico, elegeu a lavoura de sons colhidos aqui mesmo para enaltecer a invenção da sergipanidade. Cinco episódios da série D’Sergipe já estão disponíveis no YouTube. Após a apresentação de uma canção, um duo improvisado entre o sanfoneiro e um convidado, este divaga sobre o ofício, lembra a própria trajetória ou fala do número realizado antes. Na epopéia dos acordes, a concepção do projeto assim sugere, emerge um traço vivo de nossa gente.
Idealizado por Lucas Campelo e realizado por André Gonara, a série é estrelada por um elenco ainda pouco diverso, gente como o guitarrista Saulo Ferreira e o pianista João Ventura. Talvez peque por não privilegiar uma gama ainda mais abrangente de expressões musicais, muito restrita, talvez, ao universo particular do músico – o receio é deste escriba. No entanto, é possível vislumbrar ali certa feição de um dado local. Sergipe não é só a música realizada na altura destas praias. Mas, entre um compasso e outro, o nosso sotaque emerge com muita potência, a ponto de justificar algum bairrismo, o orgulho de ser daqui.
Eu, de minha parte, fico muito satisfeito com a iniciativa de Lucas Campelo, transmitida também pela TV Aperipê. No fim das contas, assim como o chefe de cozinha apaixonado pela feijoada sergipana, tão difícil de encontrar, igual ao diálogo proposto pelo sanfoneiro, esta página não se dedica a outra pauta, atolada no próprio umbigo.


