O lirismo místico de Kleber Melo

Kleber Melo reverencia entidades íntimas dos quatro elementos.

Rian Santos
riancalangodoido@yahoo.com.br

Não raro, duvido de Deus. Já fui de fazer preces, mas os boletos continuavam a chegar com todos os juros embutidos, extorsivos, impagáveis, do mesmo jeito.
Eu não creio. Alheio ao apelo espiritual das canções reunidas no álbum ‘Batuque das águas’, reconheço, contudo, a força maiúscula dos elementos mobilizados pelo lirismo de Kleber Melo. Não sei nada sobre os domínios de outros mundos. De frente para o mar, entretanto, ouço a respiração ofegante de um monstro nunca visto – E tremo.
Tudo, aqui, soa muito natural. Cordas e peles, mais a inflexão tonitruante de Kleber, dispensam outros recursos. Sopapos reverberam alto, arpejos embalam. O esteio instrumental da música, obra e graça de Ricardo Vieira e Pedrinho Mendonça, tem a força de uma verdadeira evocação.
Sim, ‘Batuque das águas’ tem um propósito notável, um sentido místico dos mais evidentes. Kleber Melo reverencia entidades íntimas dos quatro elementos: terra, fogo, água, ar. E o álbum reflete a beleza desse convívio.
Duvido de Deus, não sei nada sobre os domínios de outros mundos. Ouço o ‘Batuque das águas’ de Kleber Melo, contudo, e me sinto tocado pela magia. Eu, um homem de meia idade soterrado em ignorância e ceticismo, um cínico assumido.

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