A meio pau

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Um coro desafinado, evocação infantil de virilidade, marcou o bicentenário da República. O presidente que não broxa – segundo afirma, embora banque o Viagra dos generais de pijama -, assumiu o papel de regente.
Penso na infelicidade do mandatário, acuado dia e noite pelo medo de falhar. O receio certamente deriva de fragilidades diversas, matéria para o dr Freud. Nesta coluna, entretanto, convém passar a vista sobre a melhor literatura falocêntrica parida aqui e alhures, a fim de investigar se cascas grossas da estirpe de um Hemingway, misógino insuspeito, padecem de horror parecido. A tese é simples: a impotência do presidente, especulo, provém sobretudo de sua evidente inaptidão para a linguagem.
Hemingway, Bukowisk, Reinaldo Moraes, Pedro Juan Gutiérrez… Essa turma não é flor que se cheire. Apesar do ponto de vista encastelado no cume raso do próprio cacete, contudo, nenhum deles jamais se antecipou ao escárnio de uma amante insatisfeita, a ponto de garantir num palanque, num púlpito: Eu não broxo!
Apelo ao existencialismo de Sartre: O homem é também um produto das circunstâncias. Quem precisa enfiar a língua na boca da esposa, um espetáculo grosseiro de objetificação, revela antes o horror incrustrado no próprio peito, o pavor de cair na boca maldosa do povo. Quem não deve, os mais velhos advertem, não teme.
Bolsonaro não brocha, diz ele. Da primeira-dama Michele, uma mulher versada em línguas estranhas, entretanto, boca pio, ninguém jamais ouviu uma palavra.

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