As flores de setembro

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Ocorreu-me a lembrança de Dona Angélica.
Uma casa pequena, numa rua de barro limitada pelo perigo dos trilhos e o apito do trem. Os meninos desembestavam em algazarra do lado de fora. Eram muitos. Tinham força e inocência, graças a Deus. Em volta da mesa forrada com uma toalha branca, ao contrário, silêncio, serenidade e esforço de compreensão.
O invisível guiou a minha infância inteira. O bem, o bom e o belo no caminho, tudo presente de uma avó que nunca teve o ventre rasgado por minha mãe. Não cabe no conceito de família defendido por Malafaias e Felicianos, é verdade, mas as flores que perfumavam as preces de Dona Angélica do outro lado da cortina, transparência de pano entre dois mundos, são a minha mais cara lembrança ancestral.
Dona Vitória foi outra. Uma negra forte, voz doce, sorriso largo, a feiticeira entronada atrás de uma panela de caruru. Bucho cheio, em nome de Cosme e Damião, eu adormecia nos braços gordos da senhora de desígnios revelados em cartas de baralho e linhas riscadas nas palmas das mãos.
Não tinha bíblia lá em casa, mas eu me empanturrava de doces no dia dos padroeiros dos médicos e das crianças, comemorado ontem, 27 de setembro, mesmo sem saber nada dos santos católicos. Tive uma infância laica. Íntimo do mistério, a vida inteira entre céu e terra, aprendi o amor ao invés de uma religião.

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