Rian Santos
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Inácio, o meu primeiro filho, nasce em abril. Desde já, no entanto, pergunto-me o que sei da vida, busco algo de proveito numa coleção imensa de alegrias e fracassos pessoais para entregar de mãos beijadas a meu menino. Consulto as estrelas, bagunço a biblioteca. Não atino com fagulha ou verso precioso, mais duradouro do que o repique de um sino. Pelo visto, Inácio terá de aprender tudo por si mesmo, com os próprios erros. Eu garanto, contudo, ele jamais estará sozinho.
Inácio cresce a passos largos, percebe-se na barriga da mãe. Já o vejo entrando no mar, deslumbrado, pulando o muro da escola, juntando o dinheiro pouco para fazer um mochilão nos picos da América Latina, Europa, Ásia… No bolso do jeans surrado, passagem só de ida, para desespero dos pais. Quanto mais longe, melhor.
Sim, ouço dizer, o mundo é grande. Vasto, nas palavras de Drummond. Se cheguei até a esquina, aos tropeços, olhos gastos na paisagem dos livros, Inácio há de apalpar tudo com as próprias mãos. Com manha, eu espero. Com tato. Com mãos de quem aprendeu logo cedo a lavar a louça largada na pia e dar um prego numa barra de sabão.
Inácio, o meu filho, também há de viver um grande amor. Amor leve, de preferência. Breve, se assim for. Não é preciso que seja um amor de perder a fome, o juízo, os cabelos. Mas desejo sinceramente que um dia ele se arrepie todo, dos pés à cabeça, ao evocar o semblante de alguém que também o ame, cego para as circunstâncias – O coração e o corpo quer o que o coração e o corpo quer.
Inácio, meu filho, talvez me dê netos, um dia. E, então, alheio ao poema, ele terá me ensinado tudo – um amor sem limites, sem rima, sem solução.


