POBRE SÓ SERVE PARA VOTAR

Paulo Franklin

Por mais preconceituosa que pareça a afirmação acima, ela foi dita pelo atual Chefe do Executivo quando ainda era deputado federal. Segundo ele, “só tem uma utilidade o pobre nosso país: votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso…”. Em outros termos, quem é pobre deve se contentar com sua pobreza e aceitar a política de migalhas que se perpetua em um país que, governado pela direita, voltou ao Mapa da Fome das Nações Unidas.
Segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, divulgado em junho do corrente ano, a fome avançou no Brasil e atingiu 33.1 milhões de pessoas. É como se tivéssemos voltado à década de 90. Na opinião da economista Tereza Campello, “o presidente Jair Bolsonaro conseguiu nacionalizar a fome”. De fato, se antes a fome era um problema quase que exclusivo das regiões Norte e Nordeste, com o atual governo ela se espalhou pelo Brasil inteiro.
Diante de tal cenário, temos ainda o fenômeno da aporofobia, termo cunhado pela filósofa espanhola Adela Cortina e que significa rejeição ou aversão aos pobres. Como não se indignar, por exemplo, com a fala do pastor e líder da Igreja Batista Redenção, Marco Granconato, que afirmou que os “mendigos têm o dever bíblico de passar fome”? Em contrapartida, como não aplaudir a atitude do padre Júlio Lancellotti, que com coragem e ousadia denuncia a arquitetura “antipobres” que se espalha pelo país e consiste em afastar os menos afortunados dos locais frequentados pela elite?
Confesso que muito me emocionei quando assisti ao vídeo do empresário bolsonarista Cássio Joel Cenali, humilhando uma senhora que dele recebia marmita. Na gravação, ele indaga se a mulher é Lula ou Bolsonaro. Com humildade ela responde: “sou Lula!”, ao que o empresário retruca: “essa é a última marmita. Vá pedir para Lula”. Mesmo mais tarde tendo gravado outro vídeo se dizendo arrependido, a atitude do empresário revela uma triste face de uma política que só pensa no pobre em época de eleição.
O Bolsa Família, programa assistencial criado no primeiro ano da gestão Lula, já foi apelidado por Bolsonaro de “bolsa-farelo”. Para o atual presidente, que sempre criticou os programas assistenciais, estes são utilizados para manter os políticos no poder. Curiosamente, o mesmo que antes criticava decidiu criar o Auxílio Brasil e, quando às vésperas da eleição, prometeu um aumento de R$ 600 para R$ 800. Em ano eleitoral, tudo é possível.
O pobre não sente fome apenas de 4 em 4 anos. Se no país há pessoas em situação de miserabilidade, como bem reportou o Jornal britânico The Guardian em 2021, significa que o poder público não está atendendo ao clamor social e fechando os olhos para a dor da fome.
Mas nem todos estão em maus lençóis. Dados da Revista Forbes indicam que, mesmo em meio ao avanço do número de pessoas que passam fome no país, o número de bilionários cresceu no Brasil, saltando de 45, em 2020, para 65, em 2021. A canção dos anos 90 que dizia “o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre” nunca fez tanto sentido na Terra de Santa Cruz.
Que ninguém sem a experiência da pobreza acuse o pobre de ser um aproveitador. É muito fácil e cômodo reclamar das políticas assistenciais quando se tem o necessário para a subsistência. Quem tem uma casa para morar, lençóis quentinhos para se esquentar e pode fazer três refeições diárias não pode falar com propriedade sobre a dor da fome e da invisibilidade.
Não é normal vermos tantas pessoas passando necessidade e buscando desesperadamente ossos, gorduras e pelancas nos supermercados. Se por aqui há pessoas passando fome – e esse número só aumenta, é sinal de que o Brasil figura entre um dos países mais desiguais do mundo. Mas, conforme diriam alguns, “ainda bem que não viramos Venezuela”.

Paulo Franklin é advogado e professor.

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