Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
O protesto da Seleção da Alemanha no jogo contra o Japão, no final da manhã do último dia 23 de novembro, revelou mais um dos inúmeros constrangimentos que a Federação Internacional de Associações de Futebol (FIFA) impõe ao longo dos anos a seus filiados e ao mundo. O gesto dos jogadores alemães de pôr a mão na boca, durante a foto oficial, foi uma resposta à entidade que proibiu o uso da braçadeira de capitão com as cores do LGBTQIA+, uma das principais polêmicas dessa Copa de 2022, realizada no Catar, país islâmico, que tem leis que recriminam qualquer tipo de identidade de gênero que não seja a de orientação hétero. Na abertura, dia 20, a torcida do Equador reclamou, também, da proibição da venda de cervejas nos estádios e entornos, com exceção para os camarotes e áreas Vips caríssimos.
A FIFA foi criada em Paris, no dia 21 de maio de 1904 (tendo como sede Zurique, Suíça), por um grupo de amantes do futebol, invenção inglesa do século XVII, que se espalhou pelo mundo em razão do domínio do Império Britânico por muitos anos, sobretudo por conta do desenvolvimento econômico e da exploração também proporcionada pela segunda revolução industrial.
Segundo um revelador documentário da Netflix, “Esquemas da FIFA” (2022), até 1974, a entidade foi amadora, no melhor sentido da palavra, de amante do esporte, com competições sérias e sem influências de qualquer tipo que não fosse as desportivas. Com a eleição do brasileiro João Havelange, a FIFA se tornou uma entidade poderosa e muito rica, que foi se corrompendo e se afastando do idealismo competitivo e saudável. Virou uma poderosa empresa (apesar de se auto intitular como sendo sem fins lucrativos).
Em 2015, estourou um grande escândalo envolvendo a instituição, com revelações de esquemas de corrupção grandiosos, processos e prisões de 14 grandes nomes e autoridades e executivos, tais como Chuck Blazer, influente cartola norte-americano, que para não ter uma pena maior, fez acordo com a justiça para ser o delator de todo o esquema criminoso que durava mais de 20 anos. “Esquemas da FIFA”, apesar de dar a Joseph Blater, mostra que o sucessor de Havelange foi um dos personagens-chave de toda a engrenagem corrupta.
Tudo isso explica, em grande medida, o erro que foram as “escolhas” de Rússia (2018) e Qatar (2022) para sediarem Copas do Mundo de Futebol. E não foi a primeira vez que a FIFA teve que se submeter a países com comandos políticos duvidosos ou autoritários, a exemplo do que aconteceu na edição de 1978, na Argentina, em pleno regime militar sangrento de general Jorge Rafael Videla. Na época, houve tentativa de boicote, mas o mundial acabou sendo realizado com a Seleção Argentina, no campo, sendo campeã pela primeira vez.
Penso que a essa altura, diante do expus aqui, fica claro toda essa condescendência da FIFA com as imposições do Qatar no mundial de 2022. O que está em jogo e sempre esteve é o dinheiro. A meu ver, Jogos Olímpicos e Copa do Mundo, ou qualquer tipo de realização esportiva não deveria acontecer em países autoritários e fundamentalistas. Afinal, são competições que para além da rivalidade, visam e devem visar sempre o congraçamento entre povos e culturas diferentes, onde reine a convivência civilizada, amistosa, respeitosa e fraterna.
Em pese tudo isso, todo esse lodaçal moral, sabe o que realmente importa e graças isso as Copas seguem acontecendo e encantando o mundo inteiro? A beleza e a magia do futebol. O jogo da última quinta-feira, entre Brasil x Sérvia, serviu para reunir o país e resgatarmos a camisa da Seleção Brasileira, que foi sequestrada pela extrema direita para fazer uso político. O segundo gol de Richarlison foi uma verdadeira obra de arte, recolocando o país em local de destaque no futebol.

