Os papocos do réveillon

Centelhas do tempo presente

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Vai em paz, ano velho. Não há mais nada a dizer. Quando você levou o meu pai pela mão,não levantei a voz. Quando você me tomou a casa ao coração, eu não disse palavra. Você me tirou muito, ano velho. Pessoas queridas, a quem não escrevo mais; o casamento desfeito, após uma década inteira de amor e cumplicidade. Mas você me deixou um filho.
Vai em paz, ano velho. A passos largos e decididos. Vai e vira memória. Há esquinas de dor e de alegria na lembrança dos dias idos. Eu tropecei em todas, caí em algumas. Mas sobrevivi às quedas, constato com breve aceno à pieguice, ainda estou de pé, uma vez e outra me ergui.
Vai em paz, ano velho, passo firme, um novo ano há de vir. Alegro-me com a expectativa dos brindes erguidos entre amigos, explosões de afeto antecipadas pelo champagne, os fogos de artifício, os papocos e estampidos do réveillon. As centelhas do tempo presente me embaraçam a vista. Não sei como será amanhã.
Sim, é verdade, amanhã ninguém sabe. Estarei vivo para me despedir outra vez, ano velho?Você não sabe. Eu também não sei. Agora, vivo. E, também por isso, por não saber de amanhã, sou feliz.

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