Rian Santos
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Para a velha guarda Serigy, a assinatura do guitarrista Marcus Vinícius dispensa apresentações. Em artigo exclusivo, redigido para o Jornal do Dia, ele cede parágrafos e parágrafos para a nostalgia, a di. De clebrar as beiras lomabradas da cidade.
O RANCHO DE NOGUEIRA – Minha prima Jade morou conosco no Bairro Luzia durante o segundo semestre de 1992. Fazia pré-vestibular pela noite e de lá de casa era mais perto do que a casa dela, que ficava pras bandas da Avenida Melício Machado.
Quase toda noite depois das aulas ela partia para alguma aventura com sua turminha, como convém a toda boa turma do dito “cursinho”. Sendo eu quatro anos mais velho e naturalmente mais quieto, não me animava a embarcar também nesses passeios, apesar dos frequentes convites. Mas uma noite ela me chamou para conhecer um tal de rancho.
Rancho?
Sim, o rancho de Nogueira!
Como é esse negócio?
Lá você vê, vamos! E me puxou pelo braço.
Descíamos a escada, quando na porta do prédio conversavam alegres os bons vizinhos Luís, Júnior e Gigi. Depois de rápido acordo estávamos todos a bordo da VW Parati, rumando para o Conjunto Augusto Franco.
Eram tempos pré-smartphone e GPS. Não obstante, viramos na entrada da Terra Dura e mergulhamos na estrada escura. Os instintos eram o nosso guia. – Pode seguir direto! – Não, acho que passamos da entrada, volte! E assim fomos tateando, alheios a qualquer perigo, por alguns quilômetros em estrada de terra até enfim acharmos a propriedade, quase toda às escuras. Já havia alguns carros lá; entramos e estacionamos perto deles. E agora? A prima respondeu de pronto: – Vamos curtir!
Jade, sendo Jade, logo se misturou ao ambiente. Os outros, mais desconfiados, nos sentamos no bagageiro da Parati. Cheiro de mato, cheiro de pasto, cavalos bufando, risos, altos papos, vultos esgueirando-se por entre as trêmulas luzes dos faróis, um belo céu estrelado…
Dedilho o violãozinho. Uns se aproximam, ouvem um pouco, sartam de banda. Um diz: – Conheço essa! irada! Outro intima: – Toque AQUELA! – – Serve outra legal, dessa banda? Bafos de vinho e vodca baratos. Maresia no ar…
Pequenos grupos, de todas as tribos, espalhavam-se pelo rancho, sem muita organização ou interação em meio às penumbras. Demorava um pouco até que se descobrisse quem era quem; aquele seu brother poderia estar ali do seu lado e você sem saber… mas logo “O Evento” viria, para agregar os bons espíritos.
– Lá vem ele!, gritou um apontando pro horizonte; todos se aquietaram para mirar aquela estrelinha no céu. Que foi crescendo, tremulando, se movendo bem pouco. E pouco depois se multiplicou, cresceu, mudou de cor. Eram dezenas de luzes, duas delas mais fortes, o rugido crescendo e quebrando o silêncio do mato.
E assim o gigante pássaro noturno rugiu a uns 40 metros de nossas cabeças, abafando gritos e risadas com o ronco de suas turbinas, em seguida pousando no Aeroporto Santa Maria.
O rancho era colado à cabeçeira da pista!
Ficamos mais um pouco e voltamos pra casa: era dia de semana e ademais, a dose de aventura do mês já estava garantida.
Hoje em dia, notícias não muito boas sobre o Bairro Santa Maria, outrora conhecido como “Terra Dura”, predominam nos noticiários e redes sociais. Infelizmente. Mas não em 1992, na noite em que conheci o famoso Rancho de Nogueira.


