Rian Santos
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O sonho é uma empresa de doidos. Imagine que para colocar uma pecinha de pé, feito um espetáculo de verdade, um grupo de Teatro sediado nas beiras de Aracaju passou mais de ano concentrado numa espécie de laboratório, sem o esteio de um texto com começo, meio e fim orientando os atores no palco. O Dom Quixote de Cervantes serviu de inspiração. O propósito, no entanto, desde o início extrapolou as adaptações de praxe.
‘Os Cavaleiros da Triste Figura’, fruto da ambição desmedida do Grupo Teatral Boca de Cena, evoca o cânone literário para dar corpo à intenção de um salto. Importa, agora, assumir a estatura de um exercício artístico de primeira grandeza, atento às reverberações derivadas da criação no ambiente sensível da cidade.
Leitura e disposição para a experiência de carne e osso, delírio de mão na massa. Em certo sentido, a trajetória do grupo Boca de Cena declara a mesma postura heróica do engenhoso fidalgo de La Mancha. Os dois andares da sede erguida com os próprios recursos e forças no Bugio, território à margem de qualquer iniciativa de natureza cultural e educativa desenvolvida pelo Estado, desafiam moinhos de vento e monstros de sete cabeças. Certamente não faltou quem acusasse a loucura de investir na fantasia em pedaço de chão tão longe das vistas da inteligência Serigy, tomado pelo mato.
Pois o grupo Boca de Cena afirma que a periferia é lugar de gente, sim. Um ponto de intersecção alheio à geografia dos mapas, reunindo profissionais como o dramaturgo e diretor de teatro Fernando Yamamoto (Clowns de Shalkespeare/RN), a preparadora de elenco Paula Queiroz (RN), a diretora de voz Babaya Morais (MG), o preparador corporal Helder Vasconcelos (PE), o consultor em Comédia Dell’ArteÉsio Magalhães (SP), o figurinista e cenógrafo João Marcelino (RN), a consultora em literatura espanhola Célia Navarro Flores (SP). Todos colocaram o dedo na pesquisa. Cada um no seu quadrado, tudo junto e misturado, num processo criativo compartilhado.
Para responder à crise, o Teatro. Após a grande estreia, anos atrás, quando a intenção do grupo Boca de Cena foi colocada à prova com grande sucesso, um novo projeto ganha forma na sede do grupo, nas lonjuras do Bugio. Mas há uma última oportunidade de conferir este que é o ponto alto de todo o repertório da trupe: dia 26, às 20 horas, a Casa Aho servirá de palco para uma derradeira apresentação deste espetáculo que, em tantos aspectos, se assemelha a um sonho.


