A SEGUNDA MORTE DE MANÉ FOGUETEIRO

Luciano Oliveira

“Mané Fogueteiro / era o deus das crianças…” ? assim começava uma velha canção de Augusto Calheiros que embalou as festas de São João da minha infância. Já lá vão muitos anos, mas lembro bem a história. Além de deus das crianças, Mané Fogueteiro “gostava da Rosa / cabocla mais linda este mundo não tem. / Porém o pior é que Zé boticário / gostava um bocado da Rosa também.” A tragédia vem na segunda parte: um dia encontraram Mané Fogueteiro morto de tocaia, “com os olhos vidrados / de bruços no chão”. O assassino só podia ser Zé Boticário, mas a canção não se importa com isso.
Importa-lhe a última coisa que iluminou os olhos de Mané Fogueteiro: “Porém os que morrem de tiro conservam / a última cena nos olhos sem luz. / Um claro foguete de lagrimas frias / alguém viu brilhando em seus olhos azuis.” Terei eu chorado e não lembro?…
Sei que hoje meus olhos umedeceram, quando recebi a notícia da morte de Antônio Oliveira, a quem, muitíssimos anos depois, num livro que lhe enviei, chamei de “Mané Fogueteiro da minha infância”. Não, não! Antonio Oliveira não morreu de tocaia. Morreu vitimado por uma insuficiência renal que o amarrou os últimos anos de vida ao calvário da hemodiálise. Por que então a referência ao Fogueteiro? Porque Antônio Oliveira, além de vender radiolas e geladeiras, era o representante, na Itabaiana da minha infância, dos Fogos Caramuru ? “os únicos que não dão xabu!”. (Até hoje não sei o que é “xabu” ? ou seria “chabu”? ?, e não vou procurar no dicionário. Certas palavras guardam um mistério que devem conservar. A sua explicação pode destruir a poesia que elas portam…)
Outra faceta inesquecível é que Antônio Oliveira era comunista! Naquele tempo, toda pequena cidade tinha seus comunistas municipais. Eram comerciantes, sapateiros, mecânicos; eram casados e pacatos; no domingo, iam ao cinema com a família; batizavam os filhos, casavam na igreja, chamavam o padre (de quem, aliás, eram amigos) na hora de dar a extrema-unção aos seus moribundos. E eram comunistas!
Admiravam a União Soviética e sonhavam com a revolução que resgataria o Brasil do subdesenvolvimento e da injustiça. Isso, que hoje nos parece até anedótico, era uma rota legítima na época em que se formou a geração de Antônio ? os anos 40. Era um tempo de grandes engajamentos e quem tinha sensibilidade e queria mudar o mundo alinhava-se à esquerda. Gente de alto prestígio moral e intelectual como Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade etc., num ou noutro momento, fizeram parte desse amplo movimento comprometido com mudanças profundas no Brasil, numa época em que o velho Partido Comunista era um desaguadouro quase natural desses sonhos. Meu Mané Fogueteiro aderiu ao Partidão. Em 1964, foi preso. Depois de solto, mudou-se para Aracaju, onde tornou-se o Rei das Bicicletas ? nome da loja que manteve até aposentar-se. Perdi-o de vista.
Eu também mudei-me. Tornei-me professor em Recife e passei muitos anos sem nada saber dele. Um dia, faz já uns bons anos, numa das minhas viagens a Aracaju, li no Jornal da Cidade um artigo assinado por ele sobre as adaptações cinematográficas da obra de Graciliano Ramos. Fiquei surpreso com a qualidade do texto e a finura das reflexões. Indicavam um intelectual conhecedor de cinema e literatura num nível nada provinciano que nunca soube que ele tivesse. Vem daí nosso reencontro. Foi aí que conheci um Antônio Oliveira capaz de discorrer sobre a pintura de Dalí, a dança de Antonio Gades, o cinema de Visconti. E ainda permanecendo, como me disse mais de uma vez, comunista!
Agora Antônio Oliveira voltou ao interior da terra onde está enterrada minha infância. Pleno de amor pela humanidade, continuava ateu. Não podia acreditar que este baixo mundo, tão cheio de injustiça e sordidez, fizesse parte de algum plano superior. Como o compreendo! Ao mesmo tempo, tenho uma nostalgia de transcendência cuja existência a passagem de uma pessoa como ele sobre a terra me parece às vezes testemunhar. Nesses momentos, lembro uma outra canção da nossa maravilhosa música popular, Gente humilde, cuja letra, de Vinícius e Chico, diz: “E eu que não creio / peço a Deus por minha gente.” Neste momento, escrevo esta crônica como quem faz uma oração pela alma de Antônio Oliveira.

Luciano Oliveira, professor da UFPE.

Compartilhe esta notícia