De peito aberto

Um bardo extemporâneo.

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Admiro a postura assumida por Arthur Matos-trovador de melodias fáceis e arranjos de grande sofisticação. Contra a brutalidade do tempo, ele impõe a própria voz, alguns acordes, enfrenta as madrugadas da aldeia munido com o peito aberto e as rimas de um refrão. É um bardo extemporâneo.
Hoje mesmo, por exemplo, Arthur defende a sua música sob o teto da 1AGalery. No ambiente finíssimo, coberto de verde vivo, mais as cores da ousadia Serigy- refiro-me ao jardim e à galeria repleta de telas assinadas por artistas sergipanos -, ele se vale de seu repertório autoral, acompanhado pelo pianista Rafael Ramos. É na essência das canções, violão e gogó, entretanto, que a verdadeira maravilha se revela.
Sim, Arthur gravou alguns dos álbuns mais sofisticados do lugar, com camadas e mais camadas de informação. O átomo, a partícula indivisível da qual emana a beleza extraordinária e impalpável de sua música, no entanto, é ainda o nó atado por força e graça de um impulso primitivo: o pulso, a nota, a inflexão.
Ouço ‘Canyon’, o álbum mais recente de Arthur. Constato, mais uma vez, a sua capacidade de produzir melodias as mais cativantes a partir de quase nada.Mesmo na língua enrolada do Tio Sam, o enunciado é sempre claro. Trata-se de proclamar a emoção, alcançar com a vista, o coração no comando.

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