Rian Santos
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Já foi engraçado negar o talento de Djavan. Ele próprio mencionou a injustiça, em entrevista, atribuindo a motivação da gaiatice a suposto preconceito de raça.Talvez seja isso mesmo, eu não sei. Hoje, no entanto, quando o artista alagoano completa 74, ajoelho no milho. Djavan é um gênio.
Sim, o lirismo hermético de ‘Açaí’ pouco comunica, além de vaga impressão. Sem o auxílio do compositor em pessoa – carne, osso e intenções -,a letra jamais passaria deobscuro enigma. Mas esta é só uma vírgula no amplo repertório de Djavan, o sucesso impulsionado pelas engrenagens da indústria cultural. Em seus melhores álbuns e composições, o compositor se faz entender em bom português, timtim por timtim, alto e claro.
Do instrumentista não há o que falar. ‘Luz’ (1982), por exemplo, reúne canções em que as melodias reverberam por força de harmonias repletas de acordes truncados. Além da relativa complexidade do esteio harmónico, as canções ainda pulsam com uma pegada invulgar. Se, em matéria de lirismo, o trabalho de Djavan pode ser comparado aos maiores da MPB, par a par com Chico, Gil e Caetano, no que diz respeito a sonoridade, ele é uma estrela de brilho raro.Em termos de groove, não tem pra mais ninguém.
Mas não é só de maldade que se alimentam as redes sociais. Um registro de ‘Asa’, com a colaboração de Hiram Bulock na guitarra, é exemplar do que aqui se afirma. O músico está aliseu auge. Piadas ruins à parte, é por feitos assim que Djavan merece ser lembrado e celebrado.


