* Vânia Azevedo
As novas gerações vão chegando e substituindo as que estiveram no comando do cenário em que se encontram; o mundo moderno não cansa de se redescobrir e se renovar; mas o que não muda é perfil do brasileiro que não perde a mania de se utilizar da malandragem como recurso de primeira grandeza, sempre demonstrando inquestionável talento, especialmente quando o objetivo é levar vantagem.
Essa realidade se comprova diariamente em vários segmentos da economia, seja nas lojas de telefonia, nas seguradoras, nas inúmeras atividades ilegais que encontram abrigo no e-commerce, nos supermercados (quando divulgam promoções induzindo a compra do produto, mas não alteram o preço no sistema); nas mercadorias vencidas e atualizadas diariamente, irresponsavelmente, atentando contra a saúde do consumidor. Pode até não parecer, mas o fator educação poderia fazer toda a diferença.
Situações como essas com as quais nos defrontamos no dia a dia passam a ser comum até que, ao nos defrontarmos com outras culturas, percebemos o quanto normalizamos as atividades ilegais e os abusos dos quais somos vítimas: por empresas prestadoras de serviços de telefonia (essas lideram o ranking de queixas dos usuários, costumeiramente ludibriados por atendentes treinados, instigados a bater metas); entre outros prestadores (autônomos) de serviços que, vez ou outra, abusam da confiança do cliente, ao mesmo tempo em que cria um deturpado entendimento de modernidade.
Diante de inegável mal-estar recorrente, surgem questionamentos como: até quando nós, brasileiros, seremos vistos como um povo destituído de boas maneiras; será que algum dia deixaremos de ser identificados pela cultura da malandragem que nos define; e as nossas crianças, até quando precisarão ver seus pais brigarem no trânsito enquanto ignoram os seus códigos; quem é esse indivíduo que descarta o lixo pela janela do carro aos olhos dos filhos; ou o descaso quando ocupam vagas destinadas, por lei, a idosos. Não esquecendo que, a poluição sonora que beira o desrespeito e ocasionalmente vira caso de polícia (quando não termina em óbito) produz tragédias triviais ocasionalmente.
Por conseguinte, a violência, os golpes financeiros, o suborno e outras formas de lesar o outro, inegavelmente, tudo é resultado de um contexto. Fazemos parte de um sistema que há muito naturalizou o descaso e fez da “esperteza” a carta na manga, que coloca o mau-caráter em um patamar difícil de se alcançar pelas vias legais. De maneira que, nem tudo na cartilha do viver é justo, ainda mais quando se tem o reforço de uma cultura que, reiteradas vezes, precisa usar a força da lei para requerer honestidade do indivíduo.
No entanto, sempre acreditei que pequenos gestos podem fazer grandes homens. E, sabidamente, não é por acaso que atos de grande relevância estejam relacionados à educação. A educação que tanto admiramos nos habitantes de países desenvolvidos, e que se manifesta no cotidiano das pessoas viabilizando a vida de todos com base no respeito.
Talvez por isso, quando em visita ao velho continente nos chama tanto a atenção ver que os direitos existem para serem respeitados; que as regras são cumpridas na íntegra, tornando-se um procedimento que não provoca estresse. Pelo contrário, deixa implícito no simples gesto do cumprimento da lei o reflexo de uma educação que coloca as pessoas no mesmo nível.
É claro que apenas um gesto de boas maneiras não caracteriza o nível de educação do indivíduo. Mas a falta de educação, esta sim, é um fator de resistência àqueles que têm dificuldade de cumprir leis, bem como entender o lugar que lhe cabe na sociedade – inclusive desencadeando comportamentos abusivos e ultrajantes. Até porque, a educação não se caracteriza por um fato isolado, mas por um conjunto de valores que naturalmente induz o indivíduo a projetar na realidade um olhar coletivo e consciente de sua responsabilidade com o outro – sobretudo com o ambiente que o acolhe.
Em vista disso, fica um sentimento latente de desesperança quando percebemos que o tempo passa, mas a cultura do mais esperto, daquele que sempre quer levar a melhor, esta sobrevive. E não há nada de errada em querer levar a melhor. O grande problema está em perceber que o atalho que se costuma pegar, foge da legalidade e afronta com o que entendemos por moral e bons costumes.
Em suma, a lacuna não preenchida por uma boa formação impede a aquisição de valores éticos, de empatia, e forja cidadãos de caráter invariavelmente contestável, que não se cansam de reproduzir comportamentos ilícitos, repassando para as futuras gerações o que entende por profissionalismo oportunista e insidioso.
* Vânia Azevedo é professora e escritora


