Nordeste lidera paridade de gênero no setor público, mas desafio persiste em capitais

A ocupação feminina nos cargos de secretariado dos governos estaduais e capitais do Nordeste reflete as desigualdades de gênero e raça presentes em todo o Brasil. De acordo com o primeiro Censo das Secretárias – mapeamento com primeiro escalão dos governos subnacionais (estados e capitais) 2024, conduzido pelos Institutos Aleias, Alziras, Foz e Travessia Políticas Públicas, com o apoio da Fundação Lemann e Open Society Foundations, apenas 32% dos cargos na região são ocupados por mulheres, totalizando 141 secretárias. Em todo o país, a média é de 28%.
Embora alguns avanços tenham sido registrados, somente uma capital, Natal (52%), e três estados – Alagoas (54%), Ceará (47%) e Pernambuco (44%) – atingiram a paridade de gênero no período analisado. Em contrapartida, 20 estados e 16 capitais não alcançaram 30% de participação feminina em seus secretariados. Nos demais estados do Nordeste, Bahia possui 31% de secretárias, Maranhão 21%, Paraíba 20%, Piauí 25%, Rio Grande do Norte 40% e Sergipe 41%. Entre as capitais, as taxas variam: Maceió registra 12%, Salvador 38%, Fortaleza 20%, São Luís 30%, João Pessoa 21%, Recife 33%, Teresina 6% e Aracaju 13%.
O Censo mapeou 698 órgãos estaduais e 536 municipais nas capitais e considerou as secretárias que ocuparam os cargos entre novembro de 2023 e março de 2024. Pela primeira vez, o questionário incluiu a autodeclaração racial, o que permitiu um levantamento inédito do perfil racial. Os dados mostram que 57,4% das respondentes se identificam como brancas, 37,8% como pretas ou pardas, 3% como indígenas e 2% como amarelas. Outro dado levantado é a sub-representação de mulheres com deficiência: 1,3% (três secretárias) se declaram como pessoas com deficiência.
Ainda no cenário nacional, o estudo também mostra que as mulheres estão mais presentes em pastas sociais nos estados (53%) e capitais (44%). No entanto, sua participação em áreas estratégicas, como infraestrutura (22% nos estados e 18% nas capitais), órgãos centrais (18% em ambos) e econômica (15% nos estados e 30% nas capitais), permanece limitada. A concentração feminina em setores como Assistência Social, Saúde e Educação – áreas de grande visibilidade e orçamento – reflete o fenômeno da segregação horizontal, que limita o acesso das mulheres em áreas ligadas à tecnologia, matemática e engenharia, reforçando estereótipos de gênero.
Para Marina Barros, diretora do Instituto Alziras, esses números evidenciam barreiras estruturais que continuam a impedir a ascensão feminina em posições de maior influência. “Apesar de as mulheres terem conquistado espaço em algumas áreas, sua sub-representação nos cargos de primeiro escalão continua preocupante. A falta de diversidade nessas áreas impacta diretamente a qualidade das políticas públicas”.
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