O tributo à burrice

* Gregório José

 

Não há dúvida: o Brasil é o país onde até a paciência é taxada. E o “Dia Livre de Impostos”, em 29/05, essa curiosa anomalia anual, é o lembrete involuntário de que vivemos sob um regime fiscal digno de Vladímir Ilich Lênin, mas com a competência administrativa de um feirante míope.
Durante um dia — UM — lojistas de norte a sul resolvem fazer caridade tributária e vendem seus produtos sem a garfada estatal. O resultado? Descontos de até 70%, o que denuncia, com a sutileza de um soco no estômago, o quanto o brasileiro é extorquido diariamente em nome de uma máquina pública obesa, corrupta e ineficiente.
Essa pantomima cívica, promovida pela CNDL e sua ala juvenil (CDL Jovem, quase uma juventude hitlerista do varejo liberal), tem o mérito de escancarar o óbvio: estamos pagando não apenas pelo serviço público — que raramente vem — mas também pelo privilégio de ser roubado em plena luz do dia por um Estado que, se fosse pessoa física, estaria preso por estelionato.
José César da Costa, presidente da entidade, fala em “ambiente de negócios menos burocrático”. Ora, meu caro, o Brasil não tem burocracia. Tem um labirinto de Kafka redesenhado por um contador de repartição com déficit cognitivo. Nossa “Reforma Tributária” — esse arremedo tecnocrático de boas intenções — é apenas o velho vinho da simplificação servido em odres novos. Na prática, muda-se o código e mantém-se o saque.
Raphael Paganini, jovem entusiasta da causa, chama o evento de “ação nacional didática de cidadania”. Que bonito. Didático seria ensinar às crianças que todo pacote de biscoito comprado sustenta o salário de um vereador analfabeto funcional, ou que cada litro de gasolina abastece não só o carro, mas também a caixinha de algum fiscal obscuro.
O evento diz esperar dois milhões de consumidores em 1.500 cidades. Um desfile de otários libertos por um dia. Como se o cárcere tributário fosse suspenso por um gesto simbólico. No dia seguinte, volta tudo ao normal: impostos demais, serviços de menos e uma classe política que gasta mais em cotas parlamentares do que em educação básica.
O “Dia Livre de Impostos” é uma espécie de Natal tributário às avessas: por um dia, o espírito da liberdade encarna nas etiquetas de preço, mas no dia 30 de maio, o Estado ressuscita, esfomeado como sempre, e volta a devorar o bolso do cidadão com apetite medieval.
Não me venham com meias palavras. A solução para o Brasil passa por uma reforma do espírito — e uma guilhotina simbólica para o Estado. Enquanto isso não acontece, vamos nos contentando com este feriado da ilusão fiscal. Um alívio momentâneo. Um placebo tributário. Um espetáculo grotesco em que os cidadãos aplaudem por pagarem menos para continuarem sendo saqueados.

 

* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo

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