Em Estância: a primeira greve da história sergipana?

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
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A Greve é fruto de uma ação coletiva dos trabalhadores. É uma interrupção parcial ou total das atividades laborais e não visa apenas a razões econômicas, mas, sim, à obtenção de direitos ou melhoria nas condições de trabalho. A greve se dá quando as negociações estancam. Nessa abordagem sobre o tema, escolhemos especificamente um ano da última década do século XIX para investigar: o de 1891. É nesse ano que reside o fato que resolvemos examinar. Vamos a ele.
Greves ocorriam em boa parte do mundo no começo da década de 1890. Em diversos setores. Eram notáveis os informes na imprensa brasileira. Nesse ano, diria o jornal Diário de Pernambuco que nos inícios de janeiro a greve dos operários das minas de carvão na região da Valônia (Bélgica) “aumentava em grandes proporções”. Em abril do ano seguinte (1891), o tom continuava o mesmo. O Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, anunciava em suas colunas outra greve no referido país. Nela se envolveriam mais de 5 mil trabalhadores das suas “grandes fábricas metalúrgicas”, assim como nas carvoarias da cidade de Seraing, grande produtora de carvão da Bélgica. Ali, a “tropa requisitada para manter a ordem foi apedrejada”. No mesmo mês, na Itália, o governo fazia o possível para que a greve de 1º de maio que se avizinhava não estourasse, já que havia sido anunciada pelos operários. Mesmo assim, a greve estourou. Publicou ainda a imprensa carioca que também na Espanha um “congresso” de trabalhadores exigia dos patrões o máximo de oito horas por dia de trabalho, sob pena de ser deflagrada uma greve geral proposta para ter início também em 1º de maio, caso essa reinvindicação não fosse atendida. Nesse tempo, os trabalhadores não haviam conquistado esse importante benefício. Os primeiros países só o alcançariam mais de vinte anos depois. Ressalte-se que o Brasil só conquistaria esse direito mais de 40 anos depois (1932). Na França, sem a categoria chegar a um acordo, a pauta dos mineiros parisienses era uma greve geral. As manifestações de trabalhadores em busca de direitos pelo mundo pareciam contagiante. Sobretudo tensas. Não paravam. Além do mais, conforme 1º de Maio: dois séculos de lutas operárias, Caderno do Núcleo Piratininga de Comunicação, em 1891 o 2º Congresso da Internacional Socialista definiu que no 1º de maio: “todo ano, no mundo todo os trabalhadores concentrarão suas lutas pelas 8 horas e por melhores condições de vida e de trabalho”.
No Brasil, as greves também se espalhavam continuamente em diversos estados. Ainda em referência a 1890, em junho por exemplo, cem operários da fábrica de tecidos do Recife declararam-se em greve. Em fevereiro de 1891, o Pequeno Jornal, de Salvador, escreveu: “Por toda parte é a greve, as reclamações, o mal-estar da comunhão social”.  Diante da carestia, no mês seguinte esse mesmo impresso também anunciou que os foguistas e carvoeiros da Companhia Baiana de Navegação, com sede em Salvador, cujos navios adentravam a Barra do Rio Real (Estância e Santa Luzia), decidiram deflagrar uma greve “exigindo aumento de salário”. Isso impossibilitou de os navios cumprirem suas rotas. Logo depois, na mesma capital baiana viria a greve dos “alvarengueiros” (que trabalhavam em embarcações que transportavam cargas e descargas de navios), em seguida a dos estivadores. Esses diziam arriscar suas vidas, mas também reclamavam da alta dos gêneros alimentícios e por isso exigiam maiores salários. Curiosamente no mês de abril, o Jornal do Brasil também noticiava que em São Paulo “[continuava] a greve dos cocheiros”. E, ainda, apenas por conta de desavenças entre o “inspetor de veículos” da cidade paulistana, pretendiam entrar em greve no dia seguinte (19 abril) “os cocheiros de carro, carroças e tílburis”. A título de informação, “tílburi” era uma pequena carruagem de duas rodas puxada geralmente por um cavalo. Como podia ser alugada, seu uso se dava em todas as classe sociais da época.
Nesse mesmo ano 1891, estava sendo instalada em Estância, às margens do Rio Piauí, a primeira fábrica de tecido (Fábrica de Tecido Santa Cruz), pois o Estado já tinha concedido a liberação para o uso das águas do dito rio, como também a isenção de impostos. Nas margens do largo rio, casinhas rústicas. Casas de gente pobre. No ano anterior, dizia a imprensa da cidade que “a indústria era a vida de um povo civilizado” e profetizava que “no dia em que a primeira peça de pano fabricado entre nós for lançada ao mercado, neste dia teremos conquistado o diploma de povo adiantado”. Portanto, na fábrica que se projetava, os estancianos depositavam esperança. Contudo, em maio de 1891 (justamente em maio!), bem no começo de sua construção, os pedreiros que quebravam pedras, cruzaram os braços, abandonando o duro serviço devido à baixa remuneração. Exigiam aumento de salário. Como no Rio Piauí havia abundância de pedras, tudo indica que elas fossem extraídas dali mesmo.
Vale dizer que a vinda da fábrica de tecido para a Cidade Jardim passou a atrair imediatamente trabalhadores de outras localidades, como gente da Bahia. Entretanto, o jornal estanciano O Meio, que claramente fazia defesa da empresa, indagava: “como, pois, exigir-se preços elevados por trabalho tão simples?” Sem pestanejar chamou os tais operários de “preguiçosos” e de “malandros, réus da polícia”. Enfatizou ainda o periódico dizendo “que não querem trabalhar porque o latrocínio proporciona-lhes os meios de subsistência sem ser preciso manejarem a enxada”. Infelizmente não foi possível saber se o desejo dos trabalhadores foi ouvido.
Acreditamos que a greve dos pedreiros (rara, porque naquele ano só tivemos notícia de uma ocorrida no mês de junho em Paris, e no Brasil, somente em setembro, numa fábrica do Maranhão), quem sabe inspirada no movimento paredista baiano que até já tinha feito uma no setor do garimpo, tenha sido a primeira greve de trabalhadores de que se tem notícia na história da Princesa do Piauitinga e, possivelmente, de Sergipe!
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* Acrísio Gonçalves de Oliveira é escritor e pesquisador, professor do Estado e da Rede Pública de Estância

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