Os grandes prefeitos de Estância (II) Nivaldo Silva Carvalho

“Muitas vezes no sonho do Menino pobre está a ideia para realização de uma vida” Nivaldo Silva

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* Carlos Modesto

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Nivaldo Silva Carvalho (foto) descende de uma família proletária, e tinha muito orgulho disso.
Era neto pelo lado paterno de Antônio Amém e, pelo materno, de Janjão Tabaréu. Seus pais foram David Domingos de Carvalho e Maria Antônia da Silva Carvalho. Nasceu na Estância, à Rua General Pedra (antiga Rua da Baixa) em 1923. Nivaldo Silva tinha nove irmãos: Arivaldo, Valdemar, Lucila, Zelita, Célia, Belisa, Rivanda, Renato e Suzana.
Sua infância foi igualmente vivida como todo menino pobre. Brincou pelas ruas, nelas apanhou e bateu. Fez, como todos os meninos sem recursos, o primário no Grupo Escolar Gumercindo Bessa, tendo frequentado os cursos dos professores Azarias Santos e João Lima da Silveira, o Capitão. Desses inesquecíveis educadores e dos seus saudosos pais aprendeu a respeitar os mais velhos, ter dignidade, ser honrado, trabalhador e, sobretudo, amar sua cidade natal.
Aos quinze anos de idade, como todo menino proletário, começou a trabalhar na Garagem de Antônio Fontes Costa de Carvalho (Tota), localizada à Rua Capitão Salomão. Era uma garagem que funcionava como guarda de carros e caminhões, que na cidade pernoitassem, e nela também vendia gasolina. Recordava com orgulho as muitas vezes que acordava altas horas da noite, no ano de 1938, ao bater à porta caminhoneiros e motoristas que desejavam combustíveis. E a bomba era manual! Sentia prazer em seu emprego e guarda esses momentos de trabalhar cedo com bastante carinho.
Em 1939, foi trabalhar como caixeiro de Adelaido Sousa. Vivendo dois anos nesse trabalho de balcão, descobriu a vocação que iria mudar a sua vida: o Comércio. Nessa atividade dedicou quase toda sua vida. Em 1941 se estabeleceu com uma “bodega” de secos e molhados, à Avenida Getúlio Vargas (antiga Rua Nova). Em 1950, Dali partiu para a Rua Duque de Caxias (Pernambuquinho) onde instalou-se novamente, agora dessa vez, com um armazém de secos e molhados com seu irmão Arivaldo Silva Carvalho (grande amigo do meu pai), surgindo, daí, a firma Nivaldo Silva & Irmão. Em 1958, fundou uma nova casa comercial – “Lar Joia” num ponto importante da Rua Capitão Salomão.
Nivaldo Silva teve sucesso é verdade, mas a custa de muito trabalho, muito esforço e, sobretudo, com muita determinação e suor para conseguir o que desejava. Soube desenvolver com maestria e talento a sua vocação para Comércio. Sua firma ocupou durante muito tempo lugar de destaque entre as principais do Estado.
Nas cidades de Boquim e Esplanada, na Bahia, tinha lojas e seis foram as firmas que fundou e que integravam o Grupo que ele dirigia:- Nivaldo Silva & Irmão- Nivaldo Silva Carvalho – Silva & Azevedo Ltda. – Silva & Sobral Ltda.- Agro-Pastoril Rio Fundo Ltda.
Mas de todos seus empreendimentos, o que lhe tocava mais profundamente foi a fundação da GAZETA DE ESTÂNCIA, a realização de um sonho de menino pobre, mas cheio de ideias. Criou para ser uma tribuna do povo estanciano defender as suas causas. Para a cidade não ficar sem cinema comprou o Cineteatro São João e depois o Cinema Guarani; contribuiu para a ascensão do time do Estanciano; apoiou com os eventos de carnaval com o seu trio elétrico batizado de Luminosidade”, administrado pelo saudoso ex-operador cinematográfico e seu funcionário Benjamin Alves.
Eleito como Vice-Prefeito nas eleições de novembro de 1976, na chapa de Valter Cardoso (PDS), encaminhou uma carta ao então Governador, Dr. Augusto Franco, reivindicando um Estádio para a cidade de Estância. O governador respondeu cumprindo a promessa, construindo sua Praça de Esportes com capacidade para receber 6.000 pessoas sentadas, possuindo pista para atletismo, arquibancadas com cadeiras numeradas cobertas, vestiários para juízes e clubes, além de cantina, sanitários etc.
Nivaldo Silva assumiu a Prefeitura, na ausência do titular por duas vezes, a primeira em novembro de 1979, permanecendo no cargo por trinta dias e, a segunda, em 1980, quando exerceu o mandato por apenas dez dias. Com esses poucos dias como Vice-Prefeito ele não envidou esforços no sentido de melhorar Estância, ornamentando as principais artérias para os festejos natalinos, no ano de 1979. A cidade esteve tão limpa, naquele período, que chamou a atenção do Bispo de Propriá, que presidiu aqui a Festa de Nossa Padroeira e que não regateou elogios à limpeza de nossas ruas.
Ainda no centro da cidade, promoveu a limpeza e capinagem da Praça Humberto Ferreira, da Rua Capitão Salomão, onde restaurou as suas calçadas. Providenciou a podagem das árvores da Rua Gumersindo Bessa e, na Rua Pedro Homem da Costa, mandou restaurar os seus canteiros centrais. No bairro da Santa Cruz, mandou piçarrar as ruas laterais da Capela e, de igual modo, a Rua Santa Luzia, que estava intransitável. No bairro Bonfim, melhorou o aspecto do Largo da Capela, assim como da Rua Esteves de Freitas e Domingos Alves Ribeiro, instalando meio fio e sarjetas na travessa José Maria. No bairro Alagoas, providenciou a capinagem da Rua Monsenhor Vitorino e podagem das árvores.
Mesmo sendo um empresário bem-sucedido, presidiu o Estanciano Esporte Clube, integrou o Conselho Deliberativo do Cruzeiro Esporte Clube, foi também sócio contribuinte e secretário da Centenária Lira Carlos Gomes, na Diretoria do Dr. Jessé Fontes. Presidiu a Associação Beneficente Amparo de Maria, mantenedora do secular do hospital homônimo, onde nessa oportunidade pleiteou junto ao Governo do Estado a construção de um prédio moderno, bem como o Pronto Socorro. Reivindicou a pavimentação asfáltica da estrada do Abais (SE-470), do Centro de Atrações Juninas, o Forródromo Rogério Cardoso (antigo João Alves Filho) e do Matadouro Municipal.
SEU SONHO DE SER PREFEITO TORNA-SE REALIDADE
Foi eleito depois deputado estadual em (1987-1990) pelo Partido da Frente Liberal (PFL), sigla sob o comando do amigo João Alves Filho. Para tentar ser prefeito Nivaldo Silva conseguiu reunir em torno da sua candidatura as maiores lideranças política da cidade, concorrendo na época contra a candidata Raimunda Soares que disputava a sucessão municipal ao lado do também advogado João Batista como vice-prefeito. Assim, Nivaldo Silva venceu as eleições e seu sonho de ser prefeito tornou-se realidade em 1992.
Quando comecei a passar a frequentar Estância depois de 40 anos fora dela, iniciei a adquirir novos amigos e a reatar com os antigos conhecidos. Como tinha amizade com o comerciante Renato Silva, irmão de Nivaldo Silva comecei a comparecer ao “Lar Joia” onde nas horas mais calmas o Nivaldo me convidava para conversarmos. Eu o conhecia desde menino, e ele fora amigo do meu pai, mas naquela idade não tinha condições de me aproximar dele naquele tempo. Só depois de adulto começamos a trocar ideias e ele começou me admirar quando iniciei a escrever matérias para o seu jornal A Gazeta de Estância, que tinha como redator o Jornalista Vanderlei Silva que se tornou meu grande amigo e mentor na arte de escrever para essa gazeta. Esse periódico era remanescente do semanário A Estância do inesquecível jornalista Alfredo Silva.
Eu e Nivaldo passamos a conviver como verdadeiros amigos, e todas as vezes que voltava à Estância ia encontrar-me com ele a fim de papear nossos segredos permitidos e lembrar fatos pitorescos da antiga Estância onde ríamos bastantes. Durante sua fase ativa como perfeito, algumas vezes me chamava para sair com ele de carro dirigido pelo seu leal motorista no intuito de mostrar-me suas obras já feitas e o que ainda ambicionava fazer em benefício da sua cidade de berço que tanto amava, mas infelizmente a morte o ceifou antes dele realizar tais projetos. Mas antes da sua morte ele adquiriu e pagou com recursos da própria prefeitura, dois caminhões coletores de lixo, um carro Versalhes para uso da administração, uma ambulância e um veículo equipado com som para a Secretaria de Ação Social.
O adeus do prefeito foi dado com certa surpresa para os estancianos. O seu falecimento ocorrido aos 72 anos de idade, na noite do dia 7 de março de 1995, em São Paulo, vítima de uma complicação cardiovascular. O corpo de Nivaldo Silva Carvalho foi trasladado para Sergipe por volta das 15 horas da quarta-feira do dia 8, sendo recebido por familiares, amigos e autoridades políticas do Estado. Após uma breve parada em sua residência, o corpo foi conduzido por milhares de pessoas ao cemitério “Nossa Senhora da Piedade” acompanhados por soldados do TG-06-013, familiares e diversos amigos. Com o falecimento de Nivaldo Silva Carvalho, assumiu o cargo em seu lugar a assistente social, sua vice-prefeita, a Sra. Dayse de Oliveira Garcia. Embora seu pai tivesse constituído uma prole extensa, Nivaldo Silva teve apenas dois filhos: André Silva Carvalho e Manuel Dantas Carvalho (in memoriam). Estância o homenageou pós morte com um busto de bronze colocado na praça de seu nome.

 

* Carlos Modesto é cineasta, memorialista, escritor, autor dos livros: Sombras da Saudade, A História dos Cinemas da Cidade de Estância; Contos da Escuridão, Judas na Praça; Um Duble de Médico no Mundo do Cinema; Oscar Santana, 60 anos fazendo Fita; Carlos Modesto Recorda: Com Mota, a Bahia Era Uma Festa.

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