Rian Santos
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Gasto meu latim por dever de ofício. A imagem de uma bandeira com as cores dos Estados Unidos sobre as cabeças e as consciências dos “patriotas” ludibriados pelo bolsonarismo, contudo, vale mais do que mil palavras.
O happening foi realizado em pleno 07 de setembro, feriado da independência. Em lugar do grito jamais ouvido às margens plácidas do Ipiranga, ao invés do clamor que serviu de pretexto para as pinceladas platônicas do pintor Pedro Américo, ecoa agora um apelo em inglês telegráfico, de inflexão escolar: SOS Trump!
‘O grito do Ipiranga’, um documento visual datado de séculos, não passa de mentira deslavada. Pago regiamente pela coroa brasileira, sessenta e seis anos depois da Independência do Brasil, o artista carregou nas tintas, a fim de emprestar a musculatura de um herói nacional ao derriére flácido de Dom Pedro I.
O urro da paulista, ao contrário, soa franco e vulgar como um arroto, um desaforo, um palavrão. Ali, onde o rebaixamento da política ganha ares de micareta, onde o volume se sobrepõe ao argumento, onde os fundamentos se opõem aos princípios, tudo é bruto e evidente, não há nuances, não há contemporização.
Há, em todo o espetáculo, um vício de origem. Convocado por Silas Malafaia, um líder religioso com o mesmo vocabulário sujo de qualquer boquirroto, o urro da paulista fala por si mesmo, sem dar margem para interpretações. Em alto e bom som.


