Às portas do Judiciário: as mãos invisíveis da Justiça

Essas mãos movimentam o sistema, organizando autos, atendendo a cidadãos aflitos do outro lado do balcão; empurrando pilhas de processos que se acumulam como montanhas abarrotadas

* Paulino Fernandes de Lima
O cenário mais comumente imaginado do Judiciário costuma se resumir a imagens solenes: magistrados togados, tribunais de arquitetura imponente, discursos carregados de formalidade.
Entretanto, por trás desse palco iluminado existem vozes, olhares e mãos que não aparecem nas mídias, embora sustentem o peso de todo o edifício judicial. São as mãos invisíveis da Justiça.
Essas mãos movimentam o sistema, organizando autos, atendendo a cidadãos aflitos do outro lado do balcão; empurrando pilhas de processos que se acumulam como montanhas abarrotadas. São elas que abrem as portas; que orientam os “perdidos”; que explicam o que parece indecifrável. O trabalho é silencioso, muitas vezes repetitivo, quase nunca celebrado, mas absolutamente indispensável.
Em meu dia a dia na Defensoria, vejo de perto como um gesto simples de um servidor pode mudar o rumo de uma vida. Um processo que é colocado em pauta mais cedo; uma certidão expedida com atenção; uma explicação paciente a alguém que mal entende a linguagem processual.
São atitudes que não aparecem divulgadas nos sites oficiais, tampouco nas redes sociais, mas que, para o cidadão comum, representam a diferença entre continuar no labirinto da espera ou finalmente vislumbrar uma saída do fim do túnel.
A invisibilidade dessas mãos é paradoxal. Elas estão em toda parte, mas raramente são lembradas. O brilho das decisões só recai sobre quem assina, como se a engrenagem funcionasse por si só. No entanto, basta uma greve, uma paralisação ou mesmo a ausência temporária de servidores para que o Sistema revele sua fragilidade. É nesse instante que se percebe o quanto a Justiça é feita também (ou talvez, sobretudo), por aqueles que atuam nos bastidores.
Recordo de um processo em que a tensão era imensa: a parte aguardava, sofregamente, por uma decisão sobre medicamento de alto custo. O juiz determinou a intimação imediata, mas foi o servidor, com sua agilidade, quem redigiu, conferiu e expediu a ordem no mesmo dia. Para a família, não importava quem havia assinado a sentença, mas sim a rapidez com que aquela decisão ganhara vida prática. Ali, o servidor foi tão decisivo quanto o próprio magistrado.
Há também os colaboradores (remunerados ou voluntários), muitas vezes tratados como peças descartáveis, mas que aprendem, auxiliam, organizam, e dão conta de tarefas que, se não realizadas, atrasariam ainda mais o fluxo processual. São mãos fraternas que, em troca de bolsas modestas, ajudam a sustentar a máquina da Justiça, com energia e disposição.
O reconhecimento dessas mãos invisíveis é, no fundo, reconhecimento da humanidade da Justiça, porque por trás dos carimbos, dos sistemas eletrônicos e dos protocolos, existem pessoas, que também enfrentam filas; que pegam ônibus lotados; que vivem seus próprios dramas fora do fórum.
Ainda assim, encontram forças para, no expediente, serem pontes para que o direito do outro não se perca.
A invisibilidade, porém, não pode ser naturalizada. Quando esquecemos quem realmente sustenta a engrenagem, reforçamos uma lógica injusta: a de que só importa a autoridade visível, enquanto aqueles que constroem o caminho diário permanecem esquecidos. É preciso dar luz, dar voz, dar dignidade também a quem atua nos bastidores.
Por isso, quando recebo auxílio dessas mãos, faço questão de agradecer, pois também colaborou no trâmite, repetidamente: “Eu quem agradeço”.
Pode parecer um gesto pequeno, mas é um reconhecimento mínimo de que ninguém chega a uma decisão, sozinho. O jurisdicionado vê no defensor a face mais próxima do direito, mas eu sei, de dentro, que sem essas mãos invisíveis meu trabalho também se perderia no vazio.
As portas do Judiciário não se abrem apenas pelo peso da lei. Elas se movem, diariamente, pelo esforço de quem não aparece. E talvez a verdadeira Justiça comece justamente quando lembramos que ela é feita não apenas pelos membros que exercem as funções da Justiça, mas também por cada servidor e colaborador que, em silêncio, garante que a engrenagem continue girando.
Se o Judiciário quer ser visto como instituição de credibilidade, precisa reconhecer com mais clareza a contribuição dessas mãos, porque, afinal, a Justiça é mais humana quanto mais se consegue enxergar (e valorizar) aqueles que a constroem todos os dias, mesmo que longe dos refletores.
E é com esse olhar que sigo meu caminho: reconhecendo que, nós, os profissionais do Direito, não caminhamos sozinhos.
A Justiça só existe porque há mãos invisíveis que, em silêncio, fazem-nas pulsar.
* Paulino Fernandes de Lima, defensor Público do Estado de Pernambuco e Professor
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