Virgínia Fonseca e o marketing do ridículo

* Michel de Oliveira

Vivemos a era da atenção, ela é a moeda mais valiosa do nosso tempo. A coroação da influenciadora e empresária Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio talvez seja o exemplo mais sofisticado de como atrair olhares – ainda que pelo ódio ou pelo ridículo – pode se transformar em uma estratégia de monetização. O que antes seria um “mico” a ser evitado, hoje é estratégia publicitária com retorno sobre investimento (ROI) de marketing calculado, narrativa bem amarrada e repercussão planejada.
O enredo é engenhoso: uma influenciadora que nunca teve ligação orgânica com o samba se torna rainha de bateria, ocupa um posto tradicionalmente associado a nomes históricos do carnaval carioca e vira manchete instantânea. O patrocínio milionário da WePink, sua marca de cosméticos, foi divulgado com antecedência, os banners foram espalhados pela quadra, um quiosque foi instalado no centro do evento de coroação. Cada gesto, do look escolhido aos passos de dança desengonçados, foi pensado para gerar compartilhamentos, comentários e, principalmente, conversão em vendas.
A escola também ganha: não só os milhões do contrato de patrocínio, mas visibilidade global. O nome Grande Rio esteve entre os assuntos mais comentados nas redes, virou pauta de programas de TV e ocupou espaços editoriais que dificilmente estariam disponíveis sem esse ingrediente de polêmica. No mercado em que as escolas competem por recursos e por relevância, esse tipo de “escândalo controlado” é um ativo tão valioso quanto a criatividade do enredo ou a perfeição da bateria.
A suposta “vergonha alheia” de Virgínia não é descuido, mas método. Por trás das críticas à sua performance sem samba no pé, existe um roteiro publicitário impecável, que mobiliza a velha máxima do “falem mal, mas falem de mim”, só que agora transformada em fluxo de caixa.
Não é a primeira vez que ela faz isso. No julgamento das bets, quando foi acusada de incentivar jogos de azar, a influenciadora se colocou no centro da polêmica, apresentando-se como infantilizada, abobalhada e descolada, gerando semanas de cobertura gratuita para sua imagem e para seus negócios. Agora ela reaparece com nova persona de marketing, não mais como a colegial tonta, mas como a gostosona de pernas torneadas, que faz passos de Tik Tok em vez de sambar.
Ela vende – sim, essa é a palavra mais adequada – a imagem da “loira burra” nas redes sociais e na imprensa. Enquanto isso, milhões de brasileiros, muitos com celulares pré-pagos, gastam tempo e dados para comentar, rir, criticar, compartilhar. Pagam com muita atenção, como esperado por quem planejou a estratégia. Cada tweet indignado, cada post debochado, cada análise televisiva aumenta o alcance da mensagem. O ódio e o ridículo funcionam como combustível para a máquina de marketing. A marca de Virgínia se torna cada vez mais conhecida e popular, com mais quiosques espalhados pelos shoppings, o aumento das vendas on-line e o anúncio de faturamento do primeiro bilhão da marca.
Esse é o marketing de sucesso em 2025: não basta ser visto, é preciso provocar. A performance do ridículo de Virgínia Fonseca é um produto cuidadosamente embalado e vendido com alta margem de lucro. E no fim, quando o desfile passar, ela continuará fazendo o que sabe de melhor: transformar atenção em dinheiro. Sem samba no pé, mas com milhões no banco, à custa de bets e bestas.

* Michel de Oliveira, Jornalista e Doutor em Comunicação e Informação

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