O final equivocado e o desenrolar capenga da trama me fez lembrar do ensaio “O narrador”, escrito por Walter Benjamin em 1936. No texto, o filósofo discorre sobre o empobrecimento da narrativa moderna: muita informação, pouca experiência
*Michel de Oliveira
Na cena final do remake de Vale Tudo (2025), Odete Roitman abre os olhos. A imagem, contudo, encerra a novela com a promessa de um impacto que não se cumpre. O gesto da vilã, mais do que uma reviravolta, sintetiza um modo de narrar que se apoia em efeitos, não em sentido.
O final equivocado e o desenrolar capenga da trama me fez lembrar do ensaio “O narrador”, escrito por Walter Benjamin em 1936. No texto, o filósofo discorre sobre o empobrecimento da narrativa moderna: muita informação, pouca experiência. Mesmo que estivesse se referindo à narração oral, é possível ampliar a compreensão ao perceber como a crise do narrador resulta, hoje, em um problema generalizado da crise de narração. O que ficou bem explícito na regravação da novela originalmente escrita por Gilberto Braga.
O remake da novela foi apresentado com grande aparato técnico. Câmeras sofisticadas, iluminação precisa e uma pós-produção de alto nível garantiram um produto visualmente atraente. No entanto, esse avanço tecnológico não encontrou correspondência na força narrativa. A pergunta que sustentava a versão original, “vale tudo para vencer?”, perdeu densidade, substituída por um enredo fragmentado e personagens que orbitaram em torno de acontecimentos sem consequência. O que era conflito ético tornou-se sequência de eventos.
Benjamin via no narrador tradicional alguém que transmitia experiências, e não apenas fatos. Na versão de 1988, havia ainda a intenção de pensar o país por meio da ficção; na de 2025, a trama se contenta em reproduzir discursos e gestos conhecidos, como se a atualidade bastasse para dar sentido à história.
A decisão de manter Odete viva é um exemplo claro desse deslocamento. Em vez de encerrar a trajetória da personagem como símbolo da impunidade e da corrupção, o roteiro a transforma em produto de consumo, pronto para o debate de redes sociais e manchetes de portais. A cena perde sua dimensão simbólica e se converte em estratégia de engajamento. A vilã não morre porque a trama não suporta o silêncio, nem a ambiguidade. Tudo precisa continuar, mesmo que sem propósito.
Esse esvaziamento também aparece na relação entre forma e conteúdo. A produção investe na estética do espetáculo, mas evita o risco da reflexão. O que antes se sustentava no conflito entre ética e desejo dá lugar à lógica da performance. O drama humano é substituído por uma coreografia técnica. O olhar do espectador é capturado, mas não é convocado a complementar a história: está tudo dado, óbvio.
Há, ainda, um excesso de discurso moral e de “lições” explícitas. A narrativa se torna oficial, como se temesse o mal-entendido. Benjamin lembrava que o narrador autêntico não explica, ele confia na experiência compartilhada. Em Vale Tudo, o público não foi convidado a participar, apenas a assistir. A trama fechou-se em si mesma, redundando em superficialismos.
Diante dessa crise do narrador, que gera uma crise de narração, resta apelar para o espetáculo. A trama usou como artifício o exagero, a surpresa, na tentativa de compensar essa pela forma o que faltou em conteúdo. Mas o efeito não comove. Como experiência, para usar as palavras de Benjamin, ela se esvazia. No lugar de uma história memorável, o que sobrou foi uma pantomima que frustra o espectador. E não é a boa frustração de quem tem suas expectativas contrariadas, mas a de quem percebe, no fim, que a história foi mal contada.
*Michel de Oliveira, jornalista e doutor em Comunicação e Informação

