Quando o futuro vira discurso o presente é abandonado

O texto acerta quando admite que repressão sem cuidado aprofunda o problema. Mas erra ao tratar isso como descoberta recente

* Gregório José

O documento intitulado “Protegendo Futuros Prevenindo e Respondendo à Violência contra Crianças e Adolescentes por Grupos Criminosos”, firmado pelo Governo do Brasil em parceria com a União Europeia e implementado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, surge como mais uma promessa robusta de enfrentamento a uma das mais brutais mazelas contemporâneas. Assinado sob o peso da responsabilidade institucional e da retórica internacional, o acordo carrega a chancela de autoridades brasileiras e representantes de organismos multilaterais que reconhecem, ao menos no papel, a gravidade de um cenário onde a infância tem sido sistematicamente capturada pelo crime organizado.
Mas reconhecer não basta. O próprio documento escancara aquilo que o cotidiano já denuncia há muito tempo. Crianças e adolescentes não estão apenas em risco, estão sendo recrutados, usados e descartados em uma engrenagem violenta que cresce justamente onde o Estado falha
Há textos que parecem anúncios de boa vontade. Este é um deles. Brilham palavras como proteção, futuro, cooperação, enquanto o presente segue sendo um campo minado onde crianças viram peça de reposição do crime.
O documento oficial fala em proteger, prevenir, responder. Fala bonito, fala alto, fala em parceria internacional, fala em estratégia integrada. Fala tanto que quase convence. Mas os números, esses não falam, gritam. Um bilhão de crianças e adolescentes vítimas de violência no mundo. No Brasil, milhares mortos antes mesmo de completar a maioridade. Não é metáfora, é contagem de corpos.
Enquanto isso, o crime organizado não precisa de seminário, nem de lançamento em auditório com ar-condicionado. Ele age. Recruta. Seduz. Coage. Usa aplicativo, usa esquina, usa fome, usa abandono. E ganha tempo enquanto o Estado organiza eventos.
Há um abismo entre o discurso e a rua. De um lado, documentos elegantes. Do outro, meninos sendo treinados para morrer cedo. O texto reconhece que o aliciamento acontece nas vulnerabilidades. Ora, sempre aconteceu. A novidade não é o problema. A novidade deveria ser a coragem de enfrentá-lo sem verniz.
Fala-se em abordagem integrada. Palavra bonita, dessas que cabem em qualquer relatório. Mas na prática, integração ainda é exceção. Escola que não conversa com assistência. Assistência que não chega onde a polícia entra atirando. Polícia que entra sem saber quem deveria proteger. E no meio disso, a criança vira estatística antes de virar adulto.
E há algo ainda mais incômodo. A dependência de projetos. Tudo vira projeto. Começa, dura alguns anos, termina. O crime não trabalha por projeto. Ele é contínuo, insistente, organizado. Já o combate vem em ciclos, como se a urgência pudesse esperar calendário institucional.
O texto acerta quando admite que repressão sem cuidado aprofunda o problema. Mas erra ao tratar isso como descoberta recente. Isso já se sabe há décadas. O que falta não é diagnóstico. É decisão. Decisão de investir pesado em base social, em presença constante do Estado, em oportunidade real antes que o crime ofereça a falsa.
Porque no fim das contas, não é só sobre crime organizado. É sobre abandono organizado. É sobre territórios onde o Estado chega tarde, quando chega, e o crime já serviu café, deu dinheiro, deu pertencimento.
Projetos como esse são necessários. Mas não são suficientes. Enquanto forem tratados como vitrine e não como prioridade absoluta, continuarão sendo anúncio de intenção diante de uma realidade que não espera.
O futuro que se promete proteger já está sendo disputado agora. E quem perde essa disputa não é quem escreveu o documento. É quem nunca teve chance de lê-lo.

* Gregório José, Jornalista, radialista e filósofo

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