Márcio Pochmann
Os problemas contemporâneos da política não podem ser explicados apenas pela desconfiança nos partidos, pelo desgaste das ideologias ou pela ascensão das redes sociais. O que está em curso é uma transformação histórica mais profunda, marcada pela passagem de uma sociedade organizada em torno da produção material, território e representação para outra estruturada por fluxos de dados, serviços digitais, plataformas e conexões permanentes.
A política continua existindo, mas já não consegue absorver, coordenar ou representar integralmente a vida social. Do ponto de vista histórico, a política ocidental resulta da herança de três grandes configurações: a pólis participativa dos gregos, o Estado soberano westfaliano e a democracia nacional de massas da era industrial.
Essa arquitetura política esteve profundamente associada a determinadas formas de organização social, inicialmente agrárias e, posteriormente, urbanas e industriais. As classes sociais possuíam relativa estabilidade, com o trabalho crescentemente concentrado em fábricas e escritórios, e partidos de esquerda e direita tratando de representar interesses sociais identificáveis por meio de sindicatos, parlamentos e Estados nacionais que funcionavam como mediadores centrais da vida coletiva.
Da pólis grega ao Estado nacional moderno, a tradição ocidental concebeu a política como espaço privilegiado de participação na construção da ordem comum. Em Platão, por exemplo, a política buscava a justiça; em Maquiavel, centralizava-se na eficácia do exercício do poder; enquanto Hobbes a fundava na segurança garantida pelo Estado soberano.
A partir da Paz de Westfália, em 1648, o Estado moderno se consolida pelos princípios da soberania territorial e da não intervenção externa, responsáveis pela sustentação do sistema interestatal que substituiu progressivamente a ordem medieval assentada na pretensão de uma autoridade universal da Igreja Católica, representada pelo papado. Mais tarde, com a Revolução Francesa de 1789, que afirmou a soberania popular, a política passou a organizar a cidadania, a representação e os grandes projetos ideológicos da modernidade.
Por quase duzentos anos, essa arquitetura foi reforçada pela sociedade industrial. O conflito entre capital e trabalho estruturou partidos, sindicatos, parlamentos e governos. Esquerda e direita não constituíam apenas rótulos eleitorais, mas formas distintas de interpretar o mundo e mobilizar classes e frações de classe em torno da disputa por projetos nacionais.
Neste começo do século XXI, contudo, a trajetória histórica da política tem sido rompida. A economia desloca progressivamente o seu eixo da fábrica para a plataforma digital, do bem material para o serviço, do emprego estável para o trabalho fragmentado e da produção concentrada para redes distribuídas. O trabalhador de aplicativo, o criador de conteúdo, o programador remoto, o entregador conectado, o consumidor de streaming e o usuário de inteligência artificial habitam um espaço social que já não coincide plenamente com o território nacional nem com as categorias políticas herdadas da sociedade urbano-industrial.
A sociedade de serviços hiperconectada da era digital sustenta, assim, uma quarta configuração, ainda em formação, na qual o poder se distribui entre Estados, plataformas, redes, algoritmos e comunidades transnacionais. É nesse contexto de mudança de época que a ideia de impolítica ganha renovada atualidade.
A política moderna pressupunha centros de decisão relativamente identificáveis, como o soberano, o parlamento, os partidos políticos e o governo. Na sociedade hiperconectada, parcela crescente do poder opera de maneira difusa, descentralizada e infraestrutural. Plataformas digitais, algoritmos de recomendação, sistemas de pagamento, redes de dados, inteligência artificial e cadeias globais de serviços influenciam comportamentos, preferências e oportunidades sem depender necessariamente dos mecanismos tradicionais da representação política.
A condição impolítica expressa justamente o quanto o poder já não pode ser inteiramente compreendido pela gramática clássica da política. O cidadão continua votando, mas também é permanentemente modulado por arquiteturas digitais que selecionam informações, organizam a visibilidade, orientam interações e influenciam decisões. O espaço público deixa de se limitar à ágora, à praça ou à esfera nacional e transforma-se em um ecossistema comunicacional contínuo, no qual produção, consumo, trabalho, lazer e participação política se entrelaçam.
As plataformas digitais assumem, assim, funções decisivas na organização da visibilidade pública, na seleção das informações e na formação de preferências e emoções. O cidadão vota periodicamente, mas passa a viver sob arquiteturas digitais que não foram concebidas pelo sufrágio universal e que exercem influência crescente sobre decisões econômicas, sociais e políticas.
Essa é uma das grandes contradições da era digital. A democracia ampliou formalmente os mecanismos de participação, enquanto parcelas relevantes do poder efetivo migraram silenciosamente para os sistemas de dados. O parlamento continua legislando, mas algoritmos condicionam aquilo que será visto, lembrado, compartilhado ou esquecido. O Estado preserva sua soberania jurídica, porém depende cada vez mais de infraestruturas tecnológicas frequentemente controladas por corporações transnacionais.
A crise das ideologias clássicas decorre, em parte, dessa mudança estrutural. A esquerda nasceu vinculada à sociedade industrial e à centralidade do trabalho fabril, enquanto a direita moderna se consolidou em torno da propriedade, da ordem e do mercado nacional. Na sociedade hiperconectada, emergem novas clivagens, como entre conectados e excluídos digitais, proprietários e fornecedores de dados, plataformas e trabalhadores sob demanda, produtores de conhecimento e executores algorítmicos. As antigas categorias não desaparecem, mas deixam de organizar, sozinhas, a experiência social.
Autores como Zygmunt Bauman perceberam que a modernidade líquida dissolvia vínculos duradouros e enfraquecia formas estáveis de ação coletiva; Alexis de Tocqueville, por sua vez, advertiu para os riscos do individualismo democrático; e Roberto Esposito foi além ao indicar que toda tentativa de totalizar a vida por meio da política encontra um limite. A sociedade digital expõe esse limite de maneira radical.
Movimentos em rede surgem e desaparecem rapidamente, enquanto comunidades virtuais formam-se sem liderança central, afetos circulam em tempo real, identidades tornam-se múltiplas e novas formas de cooperação emergem fora de partidos, sindicatos e associações tradicionais. A vida social ganha densidade relacional, mas perde estabilidade representativa. Quanto mais conexões, menos centralidade; e quanto mais comunicação, menor a possibilidade de uma unidade permanente.
Seria um erro, entretanto, concluir que se está diante do fim da política. O Estado continua decisivo na regulação das plataformas, na proteção de dados, na tributação da economia digital, na política industrial e tecnológica, na transição ecológica e na garantia de direitos sociais. O que se desfaz é a ilusão de que o Estado tradicional, moldado na era industrial, possa sozinho organizar toda a vida coletiva.
A condição impolítica exige, portanto, uma nova imaginação institucional. Não basta restaurar as formas políticas do século XX, tampouco celebrar ingenuamente a espontaneidade das redes. É necessário reconhecer que a soberania contemporânea depende cada vez mais da capacidade de governar infraestruturas digitais, fluxos de informação e ecossistemas de dados.
A disputa política do século XXI não ocorre apenas nas urnas, pois se estabelece também nos sistemas operacionais, nos cabos submarinos, nos centros de dados, nos algoritmos de recomendação, na inteligência artificial e nas estatísticas que tornam a sociedade visível. A impolítica, portanto, não deve ser interpretada como resignação. Ela funciona como alerta contra a pretensão de reduzir a vida social a uma única narrativa, partido, ideologia ou plataforma.
A história da política ocidental pode ser entendida como uma sucessão de formas de organização do comum: da pólis participativa ao Estado soberano, passando pelas experiências da democracia nacional de massas na sociedade urbano-industrial e, atualmente, à configuração ainda incerta de uma sociedade hiperconectada e orientada por dados.
Construir instituições capazes de atuar nesse novo terreno, sem sucumbir ao autoritarismo tecnológico nem à fragmentação absoluta, constitui um dos maiores desafios da atualidade. A democracia precisará aprender a governar não apenas territórios, mas também redes, algoritmos e fluxos digitais. Caso contrário, permanecerá presa a uma política concebida para o mundo da fábrica, enquanto parcela crescente do poder real opera no interior invisível das plataformas.
Persistir em interpretar o século XXI exclusivamente pelas categorias do século XX significa condenar a reflexão pública à irrelevância. Entre a pólis e o algoritmo abriu-se uma nova época histórica. Compreendê-la é condição para que a democracia volte a disputar o futuro, em vez de apenas administrar os restos do passado.
O impasse contemporâneo, portanto, não consiste em restaurar a política da era industrial do século XX nem em celebrar ingenuamente a espontaneidade das redes. Cabe, sim, a construção de instituições capazes de dialogar com uma sociedade na qual a produção de valor, identidade e sentido ocorre cada vez mais entre o político e o impolítico, entre a representação e a conexão e entre a soberania territorial e os fluxos digitais globais.
* Marcio Pochmann, presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e professor titular de economia na Unicamp

