Ainda sobre a crise da citricultura de Rio Real (II)

* Manoel Moacir Costa Macêdo
& Márcio Rogers Melo de Almeida

Compreender a atual crise da citricultura de Rio Real, estado da Bahia, exige prospectar o seu passado e contingências contemporâneas, em suas múltiplas dimensões.
Século passado, terras devolutas disponíveis para alívio dos pecuaristas nas secas e estiagens. Alcançavam os municípios de Rio Real e Itapicuru, como na história, um único território. Léguas de extensão de Norte a Sul e de Leste a Oeste. Pastagem natural, água e nascentes limpas. Animais pastavam livremente, sem medo de roubos e desvios, marcados nas ancas a ferro e fogo, a identidade de seus donos. As chamadas “Soltas”. Para os nativos, essas terras não valiam “os custos do arame e estacas para as cercas”.
Brasil rural da agricultura de subsistência. Mandioca, milho, feijão e pecuária extensiva. Produção alargada na incorporação de novas áreas pelas descontroladas queimadas. Produtividade não estava em conta. Inexistia sistemas de produção tecnológicos para os tabuleiros costeiros rio-realenses. A economia do comportamento em gestação. A indústria de processamento do suco de laranja um sonho distante.
A terra era menos meio de produção e mais reserva de valor. Arrodeavam os tabuleiros devolutos, os latifúndios improdutivos da aristocracia familiar de Sergipe e Bahia. O coronelismo de patentes compradas ao Estado pelo quanto de terra que possuíam. O domínio da terra, abarcava a política e a cidadania.
O cultivo dos citros em Rio Real, não foi uma decisão endógena. Ocorreu de fora para dentro, carente de planejamento estratégico. O fato gerador foi a oferta abundante de terras devolutas e agricultáveis. De início grilar, cercar e apoderar. Posse e domínio juntos. O público virou privado. Produzir, uma decisão a ser tomada adiante, ou nunca.
Na contemporaneidade da década de setenta, registros mostram que os prefeitos de Rio Real e Boquim, divisa gêmea entre Bahia e Sergipe, em visitas recíprocas, acordaram com a migração de citricultores sergipanos para Rio Real com promessas de serem proprietários de terras devolutas. Produtores diligentes e detentores de tecnologia dos citros. Boquim era expressivo produtor de laranja, com importante estação experimental geradora de tecnologia citrícola e apresentava sinais de escassez de terra.
Importante registrar, que a apropriação consentida de terras devolutas, ocorreu de início, por empresas reflorestadoras para o cultivo de eucaliptos. Maciços florestais dominaram a paisagem dos tabuleiros. Cultivo com modesta absorção de mão-de-obra e restrições ambientais. Esconderijos de malfeitos. O foco era abastecer as empresas de celulose na Região.
A indústria de celulose não prosperou na escala prevista e parte da planta industrial foi liberada e com ela outra parte das áreas florestais. Nesse contexto, chegaram os citricultores sergipanos, atraídos pela informalidade das autoridades municipais e pela posse de terras públicas disponíveis. Adiante surgiram as terras liberadas pelas reflorestadoras, por preços atrativos quando comparados às terras sergipanas.
Assim a citricultura se estabeleceu em Rio Real. Naquele momento histórico, um sistema de produção apropriado ás condições de solo e clima dos tabuleiros costeiros. Terras planas, mecanizáveis, tecnologia disponível e mão-de-obra qualificada -, fatores adequados à citricultura comercial entre os Estados vizinhos. A divisa continua sendo o degradado rio real.
Com as adaptações no tempo de mais de meio século, a atual crise da citricultura de Rio Real, reproduz o improviso de seu passado. Ela ataca de forma distinta anões e gigantes. Indefesos continuam os frágeis trabalhadores, catadores de laranja e pequenos citricultores. Grandes e médios produtores e o oligopólio industrial, possuem estruturas de proteção. Alguns são identificados menos como citricultores e mais como “ex-prefeito, ex-ministro, ex-deputado”, “da laranja”, “da carroça” e “da indústria”.
A história é ciência pelos registros. Ela carrega os vieses de quem aplica o método histórico, mesmo com os limites dos cânones da ciência. Não é diferente nesse relato. No próximo artigo continuaremos com os nossos vieses, contando a história da crise da citricultura de Rio Real.

* Manoel Moacir Costa Macêdo & Márcio Rogers Melo de Almeida, são respectivamente engenheiro agrônomo e economista

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