(Carlos Modesto)”
A proeminência do verdadeiro valor cintila
em toda a parte; não precisa das luzes do mundo,
nem das suas manifestações para pôr em evidência
e relevo os seus fulgores”.
Santos Farinha
A grandeza de uma vida deveria ser maravilhosamente compensada quando esta vida deixa rastos de fraternidade, amizade e obras construtivas. Na vida do Comendador JOÃO JOAQUIM DE SOUZA SOBRINHO tudo isto existia de sobra. Alguém há de imaginar ao ler esta matéria, que eu seja descendente dele. Na verdade, não sou parente e nem o conheci pessoalmente, pois nasci sete anos depois da sua morte. No entanto, conheci em Salvador, Bahia, o seu neto, o conceituado médico baiano, o Dr. Fernando de Souza Pedroza, falecido aos 91 anos, em 12 de fevereiro de 2022.
Iniciei a admirar o Comendador João Sobrinho quando pesquisava matérias sobre os cinemas de Estância, nos jornais antigos da terra. Nesses semanários o seu nome era assiduamente citado, e suas espontâneas doações filantrópicas raras vezes eram alardeadas, assim mesmo, sem sua autorização, pois no vocabulário do Comendador não existia a palavra vangloriar. Daí nasceu o meu respeito de admiração por essa personalidade fantástica, hoje esquecida na história da nossa cidade.
A recompensa maior para um homem dessa estirpe, seria quando ainda em vida recebesse carinhosamente os agradecimentos afetuosos, daqueles que foram voluntariamente beneficiados na hora necessitada devido a alguma vicissitude da vida, ou através do afago do abraço amigo, onde as lágrimas de tristezas foram enxugadas pelo conforto meigo, através do oportuno auxílio dado naqueles momentos de angústia e desespero.
Será que a palavra MUITO OBRIGADO foi dada depois de uma maneira sinceramente agradecida do favorecido para o beneficente? Caso positivo, um gratificante arrebatamento de felicidade se apossaria da alma do homem benévolo e, neste momento de emoção ele perceberia Deus dentro do seu coração. E este mesmo homem depois de morto, será lembrado eternamente de uma maneira bem carinhosa por muitos, que o conheceram pelos seus atos marcantes e humanitários, conduzidos durante toda a sua vida? Naturalmente que não, caro leitor, pois existe um defeito peculiar na humanidade: o de esquecer depressa seus benfeitores.
Este português simpático e simples, era possuidor de uma bondade extrema, e expressava através da sua aura um poderoso fluido de simpatia, sinceridade, que contagiava a todos. Gostava mais de ouvir do que de falar. Acolhia com toda a atenção qualquer pessoa que o procurasse, dando aos necessitados a ajuda precisa. Era querido e respeitado pela sociedade estanciana daquele tempo, João Joaquim de Souza Sobrinho vivia como um fervoroso católico, e cooperava de uma maneira espontânea para com a velha igreja da Matriz e ao antigo hospital “Amparo de Maria.”
Biografia
JOÃO JOAQUIM DE SOUZA SOBRINHO, filho de Bernardino de Souza e da senhora Ana Maria de Faria, nasceu em 25 de junho de 1857, no Lugar do Monte, freguesia de San Vicente de Areas, Conselho de Barcelas, naquele verdejante e bela região do Minho, cercada de montanhas e dos férteis vales onde serpenteia o Rio Cávado, no extremo norte de Portugal.
Ele chegou ao Brasil ainda jovem, fazendo do comércio e a indústria sua vocação maior, conseguindo com isso adquirir uma grande fortuna. Em 1872, com a idade de 15 anos chegou na cidade de Estância, Sergipe, chamado pelo seu tio que tinha o nome idêntico ao seu, para trabalhar em uma das suas empresas implantadas na Rua Duque de Caxias (Pernambuquinho), cuja firma passou depois a denominar-se “Souza Sobrinho & Cia.”. No dia 28 de janeiro de 1888, com a idade de 31 anos, contraiu núpcias com a jovem Ana de Souza, tendo com ela 4 filhos: Ana de Souza Vasconcelos, casada com Manuel Victor Vasconcelos (grande colaborador do Comendador), Maria de Souza Alves Pereira, Judith de Souza Pedroza, casada com Manoel João Pedroza, e por último seu filho varão João Joaquim Sobrinho Júnior, que foi prefeito da Estância na década de 1930.
Em 1898, João Joaquim de Souza Sobrinho tornou-se também diretor da “Fábrica de Tecidos Santa Cruz” substituindo o seu tio que falecera. Contava ele com um nato talento empresarial onde desenvolveu essa aptidão numa ação sem precedentes na empresa em que iniciara (Souza Sobrinho & Cia.), e na Fábrica Santa Cruz, como também na sociedade da terra estanciana. Em 1922, no intuito de facilitar a vida do operariado da sua indústria têxtil mandou construir para uso exclusivo desses funcionários, 74 casas na Avenida Santa Cruz, cujo local ficou conhecido como “Vila Operária”.
Numa grande preocupação com a educação dos seus filhos, João Sobrinho resolveu ir com a família residir em Salvador, Bahia, onde melhores escolas e faculdades existiam, e que, naturalmente, proporcionaria assim um melhor futuro para seus filhos. Entretanto, manteve na Estância seus empreendimentos deixando-os sob a responsabilidade do seu genro, Manuel Victor de Vasconcelos. Conservou na Estância o palacete em que morava (atualmente Casa do Bispo), e na Vila do Crasto, município de Santa Luzia, ele continuou com sua bela casa de frente para o mar (hoje pertencente ao Dr. Ivan Leite). Nesses dois imóveis ele passava suas férias com seus familiares e amigos da Bahia, para participarem da paz da Estância e do Crasto, dando vida e colorido à esses locais daquela época vazia de entretenimentos. Sua vinda à Estância era uma verdadeira festa de pura felicidade. Pois ele era um portador de nobres predicados, que somava à sua fortuna em benefícios das classes menos afortunadas.
Honra ao Mérito:
João Joaquim de Souza Sobrinho
Recebe o Título de Comendador
Numa quarta-feira do dia 17 de abril de 1929, circulou pela cidade da Estância, a notícia de que havia chegado na noite anterior, inesperadamente,o padre Dom José Thomaz como portador de uma elevadíssima graça para o Sr. João Joaquim de Souza Sobrinho.
O Papa Pio XI, cônscios dos sentimentos religiosos do aludido empresário, já por informações fidedignas, através de documentos que encontrou no arquivo da Santa Sé, procedentes da diocese da Estância e do Arcebispado da Bahia, não se fez demorar em agraciá-lo, concedendo-lhe a honra de “Comendador da Ordem de São Silvestre”, máxima dignidade que raramente era concedida aos católicos. De longa data já recebia o eminente comerciante/industriário, de muitos, o título de Comendador, faltando apenas a confirmação da Santa Sé.
Dom José, recebendo ordem da Nunciatura, para ser portador da bula remetida pela chancelaria ao ilustre agraciado, chegou às 20 horas acompanhado do vigário de Boquim, padre Firmino de Jesus à residência do filho do empresário, o Júnior, onde ele se achava hospedado, e, depois de ler a bula de Pio XI, original em latim e traduzido para o nosso idioma por Dom José, ele a entregou ao Sr. João Joaquim de Souza Sobrinho, passando igualmente às suas mãos a sagrada comenda de São Silvestre, símbolo honorífico dos benfeitores da igreja.
As inesquecíveis festas do Crasto
O empresário Souza Sobrinho como já foi acima citado, trazia sempre uma comitiva de amigos empresários baianos, para usufruir da Estância e também do encantador vilarejo pesqueiro do Crasto, município de Santa Luzia do Itanhy. Local paradisíaco onde transmite até hoje uma paz poética. No tempo do Comendador, na capela do povoado do Crasto, festejava-se geralmente no último domingo de fevereiro a festa do “Senhor do Bonfim”, padroeiro do lugar. Era o Comendador quem praticamente protegia o vilarejo e mantinha pelo mesmo um carinho todo especial. E anualmente, junto à sua família, não poupava esforços e sacrifícios para dar vida e brilhantismo à festa, que atraía os moradores do local e circunvizinhos.
Muitas vezes o coronel Cantidiano Vieira cedia gentilmente a Filarmônica da “Usina Castelo”, para tocar no evento que era geralmente dirigido pelo maestro Ayres, proporcionando alegria e prazer àquelas festas do passado. O colorido do local transmitia uma grande felicidade ao grande empresário, quando o mesmo via o movimento das canoas encostando naquela agradável praia trazendo dezenas de famílias para tomarem parte dos festejos.
Da “Fábrica Santa Cruz” (em Estância), esses dias de festa do Crasto partia a lancha a motor, de propriedade da empresa, que rebocava uma barca na condução de muitos operários da referida indústria e pessoas outras da cidade de Estância, a exemplo dos anos anteriores.
Erguida naquele montículo, em frente à maré, a linda capela (hoje em ruinas) apresentava deslumbrante decoração, acentuada pelas palmeiras ornamentais em sua frente, exibindo uma paisagem de uma beleza inesquecível. Ali, os fieis participavam da missa da manhã com uma satisfação sem limites. Casamentos eram celebrados especialmente programados para este dia. Aquela data do ano representava o escapismo das suas rotineiras atividades, extravasando assim, de uma maneira harmoniosa suas alegrias. Ao terminar a solenidade cristã, uma festa à parte manifestava-se com o disparo para o alto de diversos tipos de foguetes, que os assistentes levavam mais de meia hora para poderem deixar a igreja. Ao meio-dia, era oferecido o esperado almoço aos presentes, composto de pratos variados com diversos tipos de frutas servidos impecavelmente pelos responsáveis da copa. A família Sobrinho tinha orgulho e sabia valorizar a festa.
No fim da tarde, realizava-se o cortejo religioso, roteirizado pelo Comendador João Sobrinho, trajando sua finíssima opa (veste) encarnada, ladeado pelos seus familiares e amigos capitalistas baianos, que acompanhavam a procissão, onde empenhados cocheiros conduziam a imagem do “Senhor do Bonfim”. A venerada imagem geralmente se fazia acompanhar das imagens de N. S. da Conceição e de São José, colocadas em ricos e adornados andores, que da descida da ermida circundavam pela Praça João Sobrinho e adjacências. O Monsenhor Victorino Fontes, vigário da igreja da Matriz da Estância, foi partícipe constante como celebrante de algumas das missas ou como convidado especial da família Sobrinho.
O inolvidável evento encerrava-se a partir das 23 horas, com um show pirotécnico, exibindo algumas peças de fogos de artifícios, vindos de Salvador, Bahia, e outras preparadas em Estância pelo hábil especialista Idelfonso, além dos belos foguetões que, disparados ao espaço da escuridão noturna iluminavam o céu, oferecendo um espetáculo fascinante de efeito multicor, desprendendo prateadas lágrimas, que extasiavam os participantes daquele momento de rara beleza.
Essas foram as memoráveis imagens que marcaram todos àqueles, que tiveram a oportunidade de serem espectadores daqueles momentos de tamanha felicidade, num tempo não tão remoto das décadas de 1920 e 1930, onde ainda esporadicamente se encontravam no Crasto (até o momento de quando fiz esta matéria) ainda algumas testemunhas vivas, que se recordavam com bastante carinho dessas festas maravilhosas.
João Joaquim Souza Sobrinho este grande empresário, que ajudou bastante no progresso da Estância, foi o responsável pela vinda para nossa terra de homens exemplares, como a de um outro português excepcional de nome João Pinheiro Alvelos, que aqui constituiu família e tornou-se um alto comerciante, amando esta cidade e fazendo dela sua segunda pátria. Trouxe também o maestro João Camelier, que ele conheceu na Fábrica de Tecidos São Braz, de Salvador, Bahia, o regente era pai do nosso conterrâneo Frederico Camelier, cujos dobrados e belas composições de diversos estilos musicais feitos na Estância foram perdidas e que hoje poderiam fazer parte do acervo musical da “Lira Carlos Gomes”, o Comendador também foi responsável pela vinda do Sr. Gervásio Passos Lima, grande mecânico da “Fábrica Santa Cruz” e co-fundador do primeiro cinema fixo implantado na Estância: o Cine Pathé-Paris, que depois foi mudado para o Teatro São João para se transformar no icônico Cineteatro São João.
Embora nascesse em Portugal, o nome do Comendador está ligado à Estância, pela valorização que ele ofertou ao operariado da sua querida indústria, este que foi durante décadas o baluarte na manutenção daqueles que viviam da dependência dos teares das máquinas, dessa histórica e pioneira fábrica de tecidos da Estância.
João Joaquim de Souza Sobrinho pouco tempo depois de ter assinado a declaração de venda da “Fábrica de Tecidos Santa Cruz” ao coronel Gonçalo Prado, de Maruim, Sergipe, ele falecia em Salvador, Bahia, em 9 de fevereiro de 1937, cuja morte foi repercutida em pesares e tristezas, refletindo também na Estância, onde o lamentoso ato, no sétimo dia da sua transição foi celebrada como tributo a este magnífico espécime humano, uma missa na igreja da Matriz. Seus restos mortais encontram-se num belo mausoléu erguido aproximadamente em frente da capela do Cemitério do Campo Santo, na cidade de Salvador, Bahia.
João Joaquim de Souza Sobrinho é um dos nomes que está enraizado como um dos empresários da nossa terra, que soube separar uma parte do que ganhava para usar em benefício de um povo carente, mas ele deve ser lembrado na história da Estância como amigo e benfeitor, tornando seu nome imorredouro dentro do coração do povo estanciano, cuja memória jamais deve ser apagada.
P.S. Esta matéria feita há alguns anos atrás, eu havia finalizado dizendo: que o valioso relógio da Matriz, tinha sido ofertado pelo Comendador, mas na verdade o autor do precioso presente foi seu tio do mesmo nome, João Joaquim de Souza, em 1903, e o principal responsável pela criação da Fábrica Santa Cruz.


