A imprensa de aluguel e a república dos interesses

* Gregório José

Trabalhei por mais de 22 anos em emissoras de rádio, em 1993 iniciei no jornal impresso e fui para revista, até chegar, hoje ao “online”. Nunca fui procurado para modificar ou retirar uma reportagem investigativa do prelo em troca de dinheiro. Quando fiz parte da TV Paranaíba e Band Triângulo (ambas em Uberlândia) chegaram a insinuar, mas não dei ouvidos e continuei fazendo meu papel ao lado de Ari de Castro Santos Jr e Ricardo Cunha, meus diretores. O tempo passou e agora somos surpreendidos por algo de profundamente obsceno quando o dinheiro deixa de comprar publicidade e passa a comprar influência sobre aquilo que o público deve saber. Não se trata apenas de um empresário tentando melhorar a própria imagem, mas da possibilidade de transformar redações em departamentos de relações públicas e jornalistas em obstáculos aos interesses de quem paga.
O caso Daniel Vorcaro, se confirmados os fatos revelados pelas mensagens atribuídas ao banqueiro, expõe uma deformação grave do jornalismo brasileiro. O problema não está somente na influência de um personagem sobre determinados veículos, mas na disposição de dirigentes em permitir que interesses privados se aproximem perigosamente do lugar onde deveriam prevalecer a independência editorial e o interesse público.
O jornalismo existe para incomodar os poderosos. Quando o poderoso passa a interferir na notícia que o envolve, a hierarquia se inverte. O investigado ganha voz de comando, o editor perde autoridade e o leitor, que financia indiretamente essa estrutura, recebe um produto cuja independência já não pode presumir.
É uma forma sofisticada de censura. Dispensa agentes do Estado, carimbos e ordens oficiais. Basta um contrato generoso, relações privilegiadas e a disposição de confundir conveniência comercial com liberdade de imprensa. A censura moderna pode vestir terno caro e frequentar festas exclusivas. Nem por isso deixa de ser censura quando interesses particulares condicionam a informação.
Convém, porém, não transformar suspeitas em sentenças. Mensagens e contratos precisam ser examinados em seu contexto. Nem toda publicidade compra consciência, assim como nem toda conversa entre empresários e executivos representa interferência editorial. A gravidade está nos indícios de participação direta na elaboração de conteúdos relacionados aos interesses do próprio financiador. Se confirmada, essa prática representa uma violação da confiança pública.
A questão é saber quem permitiu que essas relações avançassem. Quem sabia? Quem considerou aceitável que alguém diretamente interessado numa cobertura jornalística pudesse interferir em seu conteúdo? Demitir um dirigente pode ser necessário, mas não substitui a investigação sobre responsabilidades, procedimentos internos e eventuais benefícios concedidos.
O Brasil conhece há décadas a promiscuidade entre dinheiro, poder e influência. A novidade é que parte dessa engrenagem pode ficar registrada em mensagens de celular. A tecnologia não inventou a velha prática nacional. Apenas tornou mais difícil apagar suas pegadas.
A imprensa cobra transparência de políticos, empresários e instituições. Deve, portanto, demonstrar que também aceita o rigor quando a investigação alcança seus próprios dirigentes. É fácil defender a liberdade de imprensa quando ela incomoda os adversários. Difícil é defendê-la quando ameaça contratos, receitas e amizades poderosas.
Quando o dinheiro começa a editar a realidade, o jornal deixa de fiscalizar o poder e passa a protegê-lo. O público continua lendo manchetes, sem necessariamente conhecer os interesses que moldaram sua publicação.
Uma imprensa que precisa pedir licença ao poder econômico para contar os fatos não está apenas em crise. Está comprometendo a própria razão de existir.
Escrevo alguns pensamentos, algumas ideais e sentimentos. Alguns editores publicam, outros leem e descartam, continuo meu papel de escrever, apontar e dizer o que penso. Boa leitura.

* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo

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