A democracia voltou ao centro da política com Lula no segundo turno

* Thiago Modenesi

Há momentos em que uma eleição ultrapassa os limites da disputa entre candidaturas e se transforma em um confronto entre projetos de sociedade. O segundo turno da eleição presidencial brasileira de 2026 é um desses momentos. E uma das novidades mais importantes desta reta final é a retomada das redes sociais e das ruas por setores da esquerda e das forças progressistas.
Durante anos, a extrema direita demonstrou grande capacidade de mobilização digital, explorando algoritmos, desinformação e discursos de ódio para ampliar sua influência. Agora, assistimos a uma movimentação que desafia essa hegemonia: ideias progressistas voltam a ganhar espaço, a juventude se mobiliza e a defesa da democracia, das universidades públicas, da ciência e dos direitos sociais recupera visibilidade.?
Não se trata de afirmar que a esquerda já conquistou as redes ou que o resultado eleitoral está decidido. Trata-se de reconhecer uma mudança importante na dinâmica política: o campo progressista volta a disputar ativamente a opinião pública, em vez de apenas reagir às provocações de seus adversários.?
A participação juvenil merece destaque especial. Jovens que ocupam as redes e as ruas em defesa da democracia, da universidade pública e contra o autoritarismo demonstram que não existe uma geração condenada à indiferença política ou à influência permanente da extrema direita.
Defender a universidade é defender o conhecimento, a ciência e a possibilidade de transformar a realidade. Defender a democracia é compreender que divergências fazem parte da vida pública, mas que a violência política, a intolerância e o desrespeito às instituições não podem ser normalizados.
O antifascismo, nesse contexto, precisa ser mais do que uma palavra de ordem: deve representar o compromisso concreto com as liberdades, a pluralidade, a dignidade humana e os direitos conquistados historicamente.?
A retomada das ruas tem um significado especial. As redes ampliam mensagens, mas a presença física transforma indivíduos dispersos em uma coletividade que se reconhece, dialoga e se organiza. Quando a mobilização digital se combina com a ocupação dos espaços públicos, a política recupera sua dimensão de participação popular.?
O Brasil não está isolado nessa disputa. Em diferentes países da América Latina e do mundo, a defesa da democracia, os direitos sociais e a resistência ao autoritarismo e à extrema direita no poder integram debates e mobilizações políticas. Nova York também faz parte desse cenário internacional de disputas sobre os rumos da democracia com seus recentes protestos contra Donald Trump.?
Embora cada país tenha sua própria realidade, existe uma preocupação compartilhada com os riscos da normalização de práticas autoritárias e com o avanço de projetos que questionam direitos e garantias democráticas.?
Essa convergência merece atenção. A defesa da democracia não pode ser tratada como uma questão exclusivamente nacional, porque os desafios contemporâneos atravessam fronteiras. A resposta, contudo, precisa respeitar as particularidades de cada sociedade e fortalecer a participação democrática em cada contexto.?
No Brasil, Lula e Flávio Bolsonaro chegam à reta final em uma disputa apertada. A possibilidade de uma virada eleitoral permanece no horizonte. A mobilização nas redes e nas ruas pode sim garantir a vitória ao contribuir para alterar o ambiente político, ampliar o debate público e estimular a participação.?
Há, entretanto, uma conquista política que merece ser reconhecida independentemente do resultado: a demonstração de que as redes sociais e os espaços públicos não pertencem permanentemente à extrema direita. A esquerda e as forças progressistas têm capacidade de mobilização, de diálogo e de construção de alternativas, retomaram isso com força, ganhando capilaridade e alcance.?
O desafio é transformar essa energia em organização duradoura. Não basta ocupar as ruas durante a campanha ou viralizar mensagens nas redes. É preciso fortalecer movimentos sociais, centros acadêmicos, sindicatos, organizações comunitárias e espaços de formação política. A defesa da democracia deve continuar depois da eleição, assim como a cobrança por políticas públicas, direitos sociais e oportunidades para a juventude.?
Uma mobilização que desaparece depois da votação perde parte de seu potencial transformador. Uma mobilização que cria raízes na sociedade pode modificar a cultura política e ampliar a participação popular por muitos anos.?
A eleição será decidida nas urnas. Mas, a disputa pelo futuro da democracia continuará muito além delas. A retomada das redes e das ruas é um sinal de que a sociedade permanece em movimento e de que a hegemonia política nunca está definitivamente estabelecida.?
A grande tarefa, no Brasil e no mundo, é fazer dessa retomada o início de uma presença democrática permanente: capaz de enfrentar o autoritarismo, defender direitos e construir um futuro no qual a juventude não seja espectadora, mas protagonista da vida pública. O Brasil precisa garantir a vitória de Lula para impedir nossa nação de mergulhar em anos de retrocessos democráticos que virão com uma possível vitória da extrema direita. O próximo governo Lula terá papel fundamental para organizar um novo processo de tomada de consciência e organização popular. Bora, Lula!

* Thiago Modenesi, doutor em Educação, professor do Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste da UFPE, historiador e especialista em Ciência Política.

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