*João Cardoso Capelão
Das entranhas do sertão nordestino, onde a terra arde em pó e a fome, naqueles tempos, costumava ditar o destino antes mesmo do primeiro choro, partiu um retirante carregando nos olhos de menino o peso e o sofrimento da pobreza e da miséria. Ali viajava um povo teimoso, cuja bravura desafiava o sol para não morrer no esquecimento. Aquele menino, forjado na poeira e na esperança, atravessou um país desigual para encontrar na cinzenta São Paulo o chão duro da sobrevivência.
Nas fábricas do ABC, o metal rangia, o torno mecânico devorava suor e sangue, e as mãos calejadas de operário aprenderam a gramática da labuta. Não havia trégua entre o ferro e a vida, que lhe mutilou, mas não lhe derrotou. E foi daquele chão de fábrica, do eco surdo das prensas e das revoltas e sonhos compartilhados, que brotou a recusa à servidão. Entre apitos e piquetes, o ex-retirante se fez o líder operário, o homem que transformou o silêncio resignado dos trabalhadores no “brado retumbante” que desafiou a ditadura! A luta sindical não foi um desvio, mas a única estrada digna para quem nasceu sem nada além da própria voz!
Alguns anos após, quando o povo conduziu aquele mesmo operário à rampa do Palácio do Planalto, a história do Brasil se curvou, emocionada, diante dos seus verdadeiros construtores: os trabalhadores. E sagrado presidente, o outrora retirante nordestino transformou os seus sonhos em realidade, mas não em benefício próprio, mas para todo o Brasil. As políticas públicas gestadas em seus governos transformaram para melhor a vida do povo: o prato vazio se encheu de comida e dignidade; o “Luz para Todos” rasgou as trevas dos rincões esquecidos; a chave da casa própria abriu as portas da cidadania para quem sempre viveu ao relento; o SUS trouxe saúde e tratamento digno para todo; e os filhos das empregadas domésticas e dos pedreiros, outrora invisíveis, vestiram becas e ocuparam as universidades públicas deste país. Foi a redenção de uma gente inteira, que desafiou séculos de abandono com hospitais, escolas, crédito popular e a certeza de que a pobreza não é destino, mas injustiça.
E hoje, quando a história registra o feito monumental da sua quarta consagração popular nas urnas, o peito do Brasil pulsa num misto de alívio, reverência e triunfo. Esta quarta vitória não é apenas um marco eleitoral; é o escudo inabalável do Estado Democrático de Direito, o triunfo da vida sobre o abismo e a reafirmação de que a soberania emana, em definitivo, dos braços que trabalham. É a garantia de que as políticas de inclusão, de saúde universal, de moradia digna, de segurança cidadã e de mobilidade social seguirão erguendo os esquecidos, assegurando que o filho do trabalhador continue a sonhar e a voar tão alto quanto o seu esforço permitir.
Esta vitória ecoa pelo planeta como um trovão de liberdade e altivez. O Brasil que Lula conduz jamais aceitará se curvar, baixar a cabeça aos impérios do Norte ou aos seus satélites servis europeus. Com a dignidade de quem é dono do próprio destino, o país continuará no controle sagrado sobre suas matas, suas águas, seu petróleo e sua gente. E no grande tabuleiro da geopolítica mundial, se agiganta como artífice indispensável de um mundo multipolar, erguendo pontes entre os povos do Sul Global e desafiando a velha ordem hegemônica que por séculos construiu e manteve o seu alto padrão de vida à custa da pilhagem, do suor e das riquezas alheias.
O menino que escapou da seca agora reescreve o destino de uma nação inteira, rompendo correntes históricas e ensinando ao mundo que a soberania de um povo é tão inquebrantável quanto a esperança dos que nunca se deixaram vencer. E nesse contexto, não há como deixar de louvar o aguerrido povo nordestino, guardião indomável da consciência e da coragem nacional, que mais uma vez provou a sua grandeza, bravura, patriotismo e firmeza, porque foi daqui, da terra do sol, calejada pelo trabalho árduo, mas imensa em sabedoria e dignidade, que brotou a barreira invencível contra a barbárie, e expulsou mais uma vez as sombras do fascismo para resguardar a alma e o futuro do Brasil.
Essa vitória pertence e abraça a cada brasileira e a cada brasileiro, em todos os cantos e sotaques do Brasil, do Oiapoque ao Chuí, das metrópoles às comunidades mais distantes. Há um reconhecimento comovido àqueles que transformaram o amor pelo país em ato cívico: aos idosos, guardiões da memória e testemunhas de tantas batalhas, que foram até as urnas em defesa de tudo o que custaram a conquistar; e à juventude vibrante, que inundou as ruas com suas cores, sua sede de futuro e sua recusa em aceitar o retrocesso. Foi o encontro luminoso dessas gerações, unidas pela esperança e pela justiça, que garantiu a continuidade da democracia e consagrou, nas urnas da história, o quarto mandato do presidente do povo. Mas, a luta continua!
*João Cardoso Capelão é jornalista, ex-dirigente sindical e consultor sindical.

