* Paulo Franklin
Em 2018, eu era o único “vermelho” que trabalhava em um ambiente predominantemente bolsonarista. Nunca fui agredido fisicamente. Havia diálogo naquele espaço, mas, para quem olhava de fora, parecia difícil aceitar que alguém de esquerda pudesse conviver com pessoas de direita sem que isso se tornasse um problema.
O episódio que mais me marcou aconteceu quando uma simpatizante do então candidato entrou em contato com meu patrão para perguntar por que ele permitia que eu fosse de esquerda, já que ele próprio era declaradamente de direita. Aquilo não era uma simples pergunta. Era uma tentativa de interferir na liberdade de outra pessoa, como se a posição política de um funcionário precisasse ser autorizada pelo patrão.
Naquele momento, percebi que a divergência política estava ultrapassando os limites do debate. Pensar diferente já não era apenas discordar. Para algumas pessoas, era motivo suficiente para desconfiar, vigiar e tentar constranger o outro. O que vivi naquele ano me fez entender como a política pode se transformar em instrumento de perseguição quando deixamos de reconhecer a dignidade de quem pensa diferente.
Os anos passaram, mas a intolerância continua dando sinais preocupantes. Recentemente, em Curitiba, um carro ocupado por um casal foi cercado e depredado durante uma manifestação de apoio a Flávio Bolsonaro. O veículo foi chutado, objetos foram arremessados e um homem usou a haste de uma bandeira do Brasil para quebrar o vidro traseiro. A cena chama a atenção também pelo simbolismo: uma bandeira que representa o país sendo usada para agredir cidadãos.
Em Belo Horizonte, um idoso de 67 anos foi atropelado durante uma manifestação em apoio a Lula. O motorista foi preso sob suspeita de tentativa de homicídio, embora as circunstâncias do episódio ainda precisem ser devidamente apuradas. São situações diferentes, com contextos próprios, mas ambas nos lembram de que a violência não pode ser tratada como uma consequência aceitável da disputa política.
Não precisamos concordar sobre candidatos, partidos ou projetos de governo para reconhecer o óbvio: ninguém deveria correr riscos por participar de uma manifestação, atravessar uma rua ou simplesmente pensar diferente. Quando a disputa eleitoral chega a esse ponto, alguma coisa está muito errada em nossa maneira de conviver. Como cristão, não consigo ignorar o que essa realidade representa. A Igreja Católica não indica em quem devemos votar, mas nos oferece critérios para fazer escolhas responsáveis. Em suas orientações eleitorais, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem alertado para a necessidade de superar o ódio, respeitar as diferenças e construir a paz social. Também adverte contra o uso da religião para fins eleitoreiros.
É uma orientação que merece ser levada a sério. Não podemos falar de amor ao próximo dentro da igreja e tratar como inimigo quem pensa diferente fora dela. Tampouco faz sentido invocar o nome de Deus para justificar agressões, humilhações ou perseguições políticas. A fé não deveria servir para alimentar nossas inimizades, mas para nos ajudar a reconhecer a humanidade do outro, inclusive quando discordamos dele.
A raiva também merece nossa atenção. Ela pode nos mobilizar, mas, quando domina nossas escolhas, dificulta o diálogo e nos torna menos dispostos a ouvir argumentos contrários aos nossos. Passamos a procurar apenas aquilo que confirma nossas convicções. É nesse ambiente que a manipulação encontra espaço, porque deixamos de avaliar as propostas e começamos a julgar tudo pela simpatia ou pela aversão que sentimos por determinado candidato.
O problema é que uma eleição não deveria ser uma disputa para descobrir quem odiamos mais. Deveria ser uma oportunidade de escolher, entre propostas e candidatos reais, aqueles que consideramos mais preparados para enfrentar os problemas do país.
Votar contra alguém pode até expressar uma insatisfação legítima, mas isso não basta. Precisamos saber o que defendemos, o que esperamos dos nossos representantes e quais consequências nossas escolhas podem trazer para a sociedade. A indignação, por si só, não constrói um país melhor.
Volto, então, àquela experiência de 2018. Eu era o único esquerdista naquela sala, mas nunca considerei que isso me tornasse menos digno de respeito. Também não acredito que as pessoas que pensavam diferente de mim fossem, por isso, menos dignas de respeito. O que me incomodou foi perceber que alguém pudesse considerar legítimo questionar meu direito de trabalhar por causa das minhas convicções políticas.
É esse limite que não podemos perder de vista. Podemos discordar, criticar, contestar e até considerar equivocadas as escolhas dos outros. O que não podemos é transformar a divergência em justificativa para a violência ou para a negação de direitos.
A eleição vai passar. Os candidatos seguirão seus caminhos, mas nós continuaremos dividindo as mesmas cidades, escolas, locais de trabalho e famílias. Vale a pena pensar nisso antes de transformar qualquer adversário político em inimigo pessoal.
Que o ódio não vença a eleição. E que não vença também a nossa capacidade de reconhecer o outro como alguém que merece respeito. O voto é uma escolha política, mas a maneira como tratamos as pessoas revela muito sobre quem somos.
* Paulo Franklin é advogado e escritor

