* Gregório José
Epicteto, filósofo estoico, conta a história de Agripino, um homem que, mesmo diante da condenação ao exílio, não perdeu a serenidade nem se deixou dominar pelo medo. Ao receber a notícia de que estava sendo julgado, continuou sua rotina e, quando soube da sentença, perguntou apenas se seus bens seriam confiscados. Informado de que não, decidiu almoçar antes de partir. Agripino compreendia que nada podia fazer para mudar aquilo que não estava em suas mãos, mas sabia que a maneira de enfrentar o destino continuava sendo uma escolha sua.
Séculos depois, a política brasileira oferece um contraste que merece reflexão. Derrotado o bolsonarismo nas urnas por Lula, imaginemos Flávio Bolsonaro diante da perspectiva de uma investigação capaz de ameaçar sua liberdade. O pedido da Polícia Federal em apreender seu passaporte e a possibilidade de uma decisão desfavorável de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal que é um adversário implacável e não mede esforços para que suas decisões não sejam contestadas decidiu agira.
Ao contrário de Agripino, que esperou a sentença sem abandonar sua rotina, Flávio, nessa hipótese, teria preferido antecipar os acontecimentos e buscar nos Estados Unidos a distância que o território brasileiro já não lhe ofereceria. Não esperaria que o destino batesse à porta, pois, conhecendo os riscos que o cercavam, teria decidido partir antes que o cenário se tornasse ainda mais desfavorável.
A diferença entre os dois não está apenas na atitude diante da sentença, mas na maneira como cada um compreende aquilo que está ou não sob seu controle. Agripino aceitou o exílio sem entregar sua liberdade interior ao poder de Nero; o político moderno, por sua vez, procurou preservar a própria liberdade física afastando-se do alcance das instituições brasileiras. Um permaneceu onde estava até conhecer a decisão que mudaria sua vida; o outro, temendo o que poderia acontecer, escolheu o aeroporto como resposta à incerteza. É verdade que ninguém é obrigado a aguardar passivamente uma ameaça, mas também é verdade que a distância não resolve, por si só, as questões deixadas para trás.
Os Estados Unidos podem oferecer abrigo, conforto e milhares de quilômetros de separação, mas não têm o poder de transformar suspeitas em inocência nem de fazer desaparecer as consequências de atos eventualmente comprovados. Se Agripino seguiu para o almoço porque compreendeu que a sentença não estava em suas mãos, Flávio, nessa comparação, seguiu para a “América do Norte” porque acreditaria que ainda podia escolher onde enfrentar as consequências. Resta saber se essa escolha seria um gesto de prudência ou uma tentativa de escapar ao julgamento dos fatos.
Epicteto nos ensinou que não controlamos todas as circunstâncias, mas somos responsáveis pela maneira como reagimos a elas. Entre o estoico que aguardou a sentença e o político que, nessa narrativa, teria preferido partir antes de recebê-la, há uma diferença que nem o oceano consegue esconder. Afinal, pode-se atravessar fronteiras para fugir da incerteza, mas não se pode garantir que, do outro lado, o passado deixe de esperar.
* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo

