"A cidade é apenas conflito"

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Um delírio urbano continuado. Os fragmentos de narrativa colecionados por Demétrio Panarotto no recente ‘Ares – Condicionados’ (2015) situam o homem e a cidade, um em relação ao outro, para prejuízo dos personagens de carne e osso. Estes pulam das janelas do sétimo andar sem razão aparente. Entre suicídios e acidentes, contudo, o trânsito flui sem obstáculo.
A ideia de colocar a cidade prevalecendo sobre a experiência das gentes não é exatamente nova. Desde quando o horizonte foi fechado à vista, para citar Caeiro, a altura impossível dos prédios diminui o homem, obrigado a apertar o passo para não acabar atropelado, olho grudado no buraco das fechaduras, surpreendido pela ordem institucional ou a câmera de um smartphone. Aqui o tom é de humor e absurdo. O sorriso provocado pela narrativa breve e sucinta de Panarotto, no entanto, é quase sempre um tanto amargo.
Embora a selva de pedra seja o maior personagem do volume, os coadjuvantes colaboram decisivamente na composição do quadro capturado. Um tipo de gente solitário, sem nenhum laço atado à paisagem, além de uma submissão radical às circunstâncias do entorno material, erguido em concreto armado. Numa espécie de voyeurismo mecânico, uma rara, talvez a única manifestação de ânimo no coração da cidade.
Com quatro volumes de poemas lançados e um doutorado em teoria literária, o catarinense Panarotto mimetiza o vulgar imagético contemporâneo em linguagem, no sentido de apreender uma sensação cada vez mais nítida nos dias correntes. Agora, em qualquer lugar do mundo. "A cidade é apenas conflito, nada além disso".

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