A fita do cigano

* Paulo F. T. Morais

Um amigo dono de táxi entregou-me certo dia uma fita que recebeu de um cigano em troca de dois cigarros. Nela ouvira a gravação de uma conversa esquisita entre dois homens, na qual reconheceu a voz de um deles, Damião, que morava no cemitério Santa Isabel, num pequeno quarto anexo à capela. Eu mesmo fui levá-lo lá várias noites, confirmou outro taxista, que estava conosco. Nunca mais o vi; deve ter morrido, disse o outro.

 O diálogo entre o vizinho dos mortos e o professor Alto, da Universidade, foi gravado por aquele cigano, natural da Armênia, que morava nas areias das praias, com base nas do Abais, numa casa móvel, de alicerces diáfanos, suspensos a dois metros do solo, através dos quais se entrevia a forma de turbinas de avião a jato. Para construí-la ele utilizou artefatos pré-históricos e contou com a ajuda da mulher, uma ucraniana diligente e criativa na arte de edificações que dispensam material – cimento, tijolo, telha etc. – usado nas nossas, e com a vantagem econômica de não pagar imposto territorial, porquanto, usando aqui a frase bacharelesca, localizada "em local incerto e não sabido".  

Muitos anos depois, conversei com eles, enquanto ouvíamos a gravação. Na época estavam construindo uma barrela encomendada por Armando "Blood" Saenz, sobrinho do maior criador de pombos-correios do mundo, o peruano Ismael "Palomo" Saenz, para branquear as últimas sotainas pretas usadas pelos padres brasileiros. Justificou o pedido afirmando que o branco é a cor do paraíso humano, e que os ciganos não esquecessem o fato de que todas as paredes do céu também estão pintadas de branco. Espumava e sangrava pelo nariz explicando que batinas pretas eram vestes dentro das quais os demônios se camuflavam. O pagamento seria a garantia de que os nômades e sua casa podiam voar descer e ocupar qualquer espaço nas areias de todo o litoral de Sergipe, durante vinte anos.

Professor Alto e Damião, mestre e ex-aluno na Universidade, reencontraram-se no belíssimo balneário estanciano, e depois da surpresa do reencontro, conversavam de molinete nas mãos.
 O cigano aproximou-se e perguntou se podia gravar a fala dos dois, que concordaram, porque estava interessado naqueles assuntos sobre os quais discorriam num tom operístico, utilizado pelos meio-surdos.

…..

Professor Alto – Você me deu muito trabalho. Era um peralta, embora inteligente.  Foi por descobrir que tinha esse poder que deixou o curso?
Damião – Não tive alternativa. Se dissesse que podia ver a representação dos pensamentos de pessoas íntimas ou que apenas conheço, e assim continuo, me chamariam louco.
  Se essa prerrogativa me serve para algumas coisas, pois me livra de boas, e me permite através de manobras sutis evitar que muita gente amiga se envolva em situações embaraçosas, por outro lado me deixa desconfortável, melancólico e frustrado quando não posso intervir e impedir episódios que se mostrarão graves para outros.

Professor Alto – De que forma isso ocorre? Você antevê cenas?
Damião – Antevejo, mas não há padrão. Por exemplo, se um tipo está pretendendo subornar e derrubar alguém visando a alguma vantagem, tomar-lhe o cargo, ganhar aumento nos vencimentos, na cena que me surge ele está dirigindo uma van entulhada de cachos de banana enlaçados com faixas de cetim multicoloridas, rematadas por um laço onde vejo espetado um cartão no qual constam o nome e endereço do destinatário.

Professor Alto – Por que você deduz que essa imagem representa isso?
Damião – Porque o brinde, conquanto singelo e inusitado, é compensado pela quantidade, e nele está, na mesma proporção, o símbolo talvez mais lembrado quando se pensa em derrubar alguém: atapetar o caminho do desafeto com casca de banana.

Professor Alto – Vejo como instigante desafio o fato de que o dom que você diz inato, algo equivalente ao que se encontra nos compêndios de bruxaria, não está apenas na premonição com representação, mas na arte de decodificá-la.  Sem dúvida, um fenômeno para ser analisado pelas mesas falantes.
Dê outro exemplo com menos trama, isto é, que até um leigo possa desvendar sem exigir saltos mortais dos macaquinhos que quebram as louças de nossas mentes.
Damião – Quando uma senhora, as carnes já deslizando puxadas pela gravidade, está pretendendo casar, frequentemente se manifesta recusando senhas preferenciais e fugindo de filas de idosos, mesmo que convidada insistentemente para usufruir do privilégio.

Professor Alto – Muito bem.  Houve mais alguma coisa que contribuiu para abandonar o curso? Não apenas o receio de ser chamado louco, mas provavelmente tornar-se alvo da atenção de todos?
Damião – Também. Não me leve a mal. Mas outro motivo foi o senhor, porque era exigente demais, inflexível.  Porém o que me conduziu à decisão final foi temer as conseqüências de contar a verdade.  Um momento. Não há motivo para zanga. Vamos curtir amistosamente os anos que nos restam.  Seu nome verdadeiro é Vânio. O senhor virava uma serpente quando o chamavam de professor Alto. O apelido quem colocou fui eu, sem a intenção de ofendê-lo, porque compreendi que o que via era decorrente da maneira como se autoanalisava: um gênio. Quando colegas me perguntavam o porquê, dizia que era alto no saber, incomparável. Exagero, mas não mentira. Não sei se recorda, que, muitas vezes, quando passava por mim eu me abaixava; o senhor pedia respeito, chegou a me chamar de moleque, e uma vez me pôs para fora da aula. Ocorria que seus sapatos passavam raspando minha cabeça, mas eu não podia dizer nada porque espalhariam que havia perdido o juízo.

Professor Alto – A revelação de como você me via, deixou-me arrasado. O tempo é, sem dúvida, mestre da vida, e somente agora é que percebo quanto fui vaidoso e arrogante. Hoje quem está sob seus sapatos sou eu.Tenho a sensação de que dessa não me levanto moralmente. Cometi erros que me derrubam, me deixam com a cara no chão
Damião – Não fale assim, professor. Não se autoflagele. São coisas remotas. O senhor não as fazia por mal. Era jovem e culto, e muito respeitado. Não se cobre por algo sobre o qual não tinha controle.
Havia professores que se irritavam quando me levantava e subia na cadeira com a intenção de vê-los melhor. Achavam que era desrespeito, mangação. Como não tinham coragem de me enfrentar – talvez me achassem um tipo perigoso, porquanto capaz de uma anarquia daquelas – iam à diretoria.  Não sabiam que, por terem complexo de inferioridade, pouco qualificados, sem mestrado nem doutorado, reduziam-se, não podia vê-los; então subia nas cadeiras e os avistava sentados no chão.

Outros agastavam-se quando eu olhava para cima, para os lados, para baixo, enquanto falavam. Desconfiados, apenas pediam que me comportasse, que chamego era aquele? Ciclotímicos, bipolares, transfiguravam-se de acordo com o que iam sentindo. Esses incidentes me fizeram desistir, e larguei o curso.         

Professor Alto – Um momento, Damião. A linha do meu molinete está esticando.  Vou até lá.
Damião – Mas vá caminhando, porque vejo que o senhor está rastejando.

* Paulo F. T. Morais é jornalista e escritor

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