Rian Santos
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Heitor Mendonça não para de colher os frutos gerados pelo lançamento de seu primeiro disco. Depois da participação no programa Sr Brasil, apresentado por Rolando Boldrin, um baluarte do cancioneiro regional, o músico juntou a fome com a vontade de comer e se prepara para arrastar os acordes paridos com os pés fincados aqui na terrinha até o velho mundo. Bom pra ele, melhor ainda para os tambores da aldeia, que vem respondendo com um tum tum insistente à crescente curiosidade suscitada por tanta inspiração. "Acho que o Brasil está descobrindo nossa riqueza cultural".
Jornal do Dia – É correto afirmar que o seu trabalho é herdeiro da tradição musical responsável pela criação do imaginário nordestino? Em seu primeiro trabalho, me pareceu manifesta a intenção de conciliar esse imaginário com o universo urbano e contemporâneo. Em que medida esse diálogo reflete a sua formação pessoal e musical?
Heitor Mendonça – Coleciono paisagens sonoras desde a minha infância. Dei sorte por ter vindo ao mundo filho de duas pessoas maravilhosas, um maestro e uma professora. Com o maestro eu descobri a grandeza da música, a sutileza de um mundo de possibilidades infinitas, ao meu tempo fui absorvendo musicalidade, na noite dos bares ouvindo meu pai tocar entre uma brincadeira e outra, dentro de casa quando o ouvia estudar durante horas as peças de João Pernambuco, Nicanor Teixeira, Garoto, João Rodriguez, a casa muito singela de apenas um cômodo no recém-criado conjunto Orlando Dantas estava sempre cheia de gente e de sons. Sons que meu pai me ensinou a decifrar. Com a professora eu aprendi o valor da minha identidade cultural, e o papel libertador da educação. Meu trabalho é síntese dessa bagagem e está em constante estado de renovação, é formado pelo diálogo entre as paisagens musicais que acumulei e a tradição cultural que me identifica. Acho que o imaginário nordestino se (re) constrói de forma parecida, é uma síntese da nossa identidade cultural, que está presente não só na música, mas em toda nossa produção artística, e está em constante estado de renovação. Portanto, procuro em meu trabalho expor as marcas tão características dessa tradição sem nunca perder o bonde das transformações que bem indicam a vitalidade de nossa cultura.
JD – Você já atua na música há um bom par de anos, mas somente agora se dedicou ao registro de um repertório autoral. Esse registro é derivado do amadurecimento do artista Heitor Mendonça ou também de um momento vivido pela música sergipana, como um todo? O entusiasmo manifestado por alguns setores da cena (essa página, por exemplo) em relação à produção musical da terrinha encontra respaldo na realidade?
Heitor – É um pouco de cada coisa, amadurecimento e oportunidade são os nortes, sem falar em necessidade mesmo. Um compositor sem disco é como um escritor sem livros. No meu caso teve ainda teve o papel fundamental de Marcela Prado, minha esposa, que acabou se tornando produtora do meu trabalho. Através dela consegui concretizar sonhos e ideias. Acho que todo trabalho artístico precisa de uma pessoa para realizar esse papel. O momento atual que vive a cena musical sergipana também contribuiu. Acho que o Brasil está descobrindo nossa riqueza cultural. A projeção de artistas sergipanos no cenário nacional ajuda a abrir portas para nossa produção artística. Sinto que existe uma curiosidade maior sobre a música sergipana e isso ajuda muito.
JD – Fale um pouco dessa viagem pra Viena. Como surgiu o convite? Assusta se apresentar na capital mundial da música erudita? A dicotomia entre popular e erudito já foi superada?
Heitor – O convite para Lançamento do CD Heitor Mendonça no Museu do Mundo em Viena (Weltmuseum Wien) surgiu depois que me apresentei no programa Sr. Brasil do Rolando Boldrin. A pedagoga Vanessa Noronha, que é diretora da Sociedade Austro-Brasileira de Educação e Cultura "Papagaio" em Viena, assistiu o programa através da minha página no Facebook e entrou em contato com a Marcela Prado. As duas começaram a ter reuniões pelo Skype, a Vanessa em Viena e a Marcela em Aracaju. Era um desejo antigo da Vanessa, que também é sergipana, realizar um festival de cultura brasileira na cidade onde ela vive, e um projeto nosso de divulgar o meu trabalho na Europa. Juntamos a fome e a vontade de comer e o evento hoje é uma realidade. Realizarei três apresentações na capital da música erudita, duas no Weltmuseum e uma na Biblioteca de Viena. Os músicos que me acompanham ministrarão workshops de música brasileira. O festival terá ainda exposições fotográficas e de material audiovisual. O lançamento do CD será no dia 06 de julho, no Museu do Mundo.
Não me assusta tocar em Viena, por dois motivos: o primeiro é a certeza de estar com um trabalho pronto e ter músicos de excelente qualidade me acompanhando, o segundo é o local onde realizarei minha apresentação. O Museu do Mundo é um espaço voltado pra cultura mundial, e estou indo lá mostrar a nossa cultura. Confesso que se fosse me apresentar um concerto de música erudita ficaria com um frio na barriga, mas o foco é outro. Apresentarei as canções e os temas instrumentais do disco, essa é a marca do meu trabalho, a música erudita e a popular sempre caminharam de mãos dadas para mim, acho inclusive que o estilo musical "Cantoria" representa bem o encontro desses dois rios que deságuam no mesmo oceano.
JD – A banda que vai lhe acompanhar nessa apresentação é formada exclusivamente por músicos sergipanos. Músicos do quilate de Rafael Jr e Saulo Ferreira, além do maestro Pedrinho Mendonça, são suficientes pra sustentar uma cena como a nossa? O que a nossa música tem a oferecer ao mundo?
Heitor – Em Sergipe temos músicos de padrão internacional. Ninguém contesta que Saulo Ferreira é um dos maiores guitarristas do Brasil, assim como o Julio Rêgo na gaita, o maestro Pedro Mendonça na percussão, uma verdadeira virtuose nos ritmos, Rafael Jr. na bateria, o maestro James Bertisch, o baixista Emanuel Jorge, só pra citar os que estão mais próximos a mim e me acompanham já há algum tempo. Tenho sorte de poder contar com esses músicos e sou muito grato pela contribuição que estão dando ao meu trabalho. Nossa música tem muito a contribuir para o legado artístico da humanidade, nossos ritmos são riquíssimos, nosso folclore, a sonoridade das nossas melodias, são tesouros da cultura brasileira.


