Vânia Azevedo
Como uma granada de mão, o efeito da pandemia, aliada às vicissitudes do governo Bolsonaro, caiu no colo do brasileiro com o poder de incitar a violência, destruir famílias (consequência da falta de empregos), ridicularizar as instituiçõese isolar o Brasil diplomaticamente do resto do mundo -como uma república de idiotas no poder -; respaldado por políticos oportunistas que veem na permanência do “capitão sem farda”a possibilidade de dar continuidade aos seus devaneios pessoais de vida longa no poder.
O Brasil está mais feio, mais pobre, mais violento, mais desumano e, sobretudo, sem o prestígio de outrora quando esteve entre as seis maiores economias do mundo. Hoje, mais do que nunca, ver pedintes nas ruas da cidade é parte do cenário que dita a cruel realidade de pessoas que se submetem a condição humilhante de pedir, ou ficar em casa (isso quando possui uma) sem qualquer possibilidade de gerar o sustento da família. Passou o tempo em que pedir esmola era opção: agora é necessidade. Utilizar o transporte público tem se tornado luxo(mesmo para aqueles que sempre o utilizaram), porque quando as contas não fecham, corta-se o que menos dói a barriga. E se não tem comida, certamente o gás é objeto de luxo, sendo um dos primeiros a sumir da cozinha do pobre. A situação de miséria quase desenha nas ruas (famílias inteiras mendigando nas praças e semáforos) é fato, e não dá para ignorar apenas elevando o vidro do carro ou aumentando o som.Os depósitos de lixo nas proximidades de restaurantes, lanchonetes e bares, são pleiteados por pessoas que outrora tiveram um emprego ou uma renda alternativa para garantir o sustento. Mandar as crianças à escola já não tem o estudo como prioridade, mas, garantir uma refeição que certamente não teria em casa.E até mesmo locais como os shoppings da cidade, (antes inacessíveis à entrada de pedintes),hoje, já não controlam o número de pessoas que adentram aquele espaço para mendigar o alimento nas praças de alimentação, nos cafés e supermercados. Os pontos turísticos da cidade também têm sido alvos constantes da presença de pedintes – quando não de furtos pontuais. É a fome mudando a cara do Brasil.
Todos nós temos a nossa parcela de responsabilidade sobre a situação que o país vive. Afinal, são os representantes que o povo escolheu,e que se encontram no poder, que poderiam ter dado um rumo diferente à nação. Engavetar os pedidos de empeachment sempre foi uma situação cômoda e que jamais interessou a muitos dos nossos representantes políticos rechaçar Bolsonaro do poder.Da mesma forma que, quando uma parcela da população insiste em defender um Presidente que só pensa em armar o país, que contribui com medidas que atentam contra a integridade física de índios e negros,e que tem como ídolo um torturador (fato que jamais escondeu) temos responsabilidade sim.Isso é cumplicidade. Afinal, o que se pode esperar de um Presidente que,ao invés de criar políticas públicas para dar solução aos problemas, se utiliza de ataques fortuitos à democracia e faz da badernasua bandeira de campanha para se perpetuar no poder? Que enquanto as tragédias acontecem ele passeia de moto com a manada, ou curte férias no litoral, alheio a bagunça que o governo dele institucionalizou?
Quando Bolsonaro faz apologia à violência e transgride a Ordem Constitucional com o seu habitual desprezo às instituições e menosprezo a dignidade da pessoa humana, revela sua índole de arruaceiro, conduzindo o país a uma Venezuela que ele tanto criticou; ignora a dor e o desespero de pais e mães de família, enquanto arma o país sabe Deus com que intenção.São tempos obscuros, em que é possível encontrar trabalhador que durante o dia trabalha, e à noitese refugia embaixo de pontes e viadutos;porque não consegue pagar um lugar para morar. Porém, recolocar o Brasil no mapa da fome, isso sim, só ratifica o quanto o seu mandato foi destrutivo e permissivo, denunciando a sua incapacidade política e administrativa de governar o Brasil
Como cidadã, uma das situações que sempre me serviu de parâmetro de avaliação de um governo,é o nível de humor dos alunos na escola e a capacidade de compra dos mais humildes em supermercados e feiras. Evidentemente que ninguém poderá estampar serenidade de barriga vazia; nem tampouco manter a tranquilidade quando a situação financeira da família desaba diante das necessidades diárias, deixando aflorar os problemas emocionais que, fatalmente, desencadeiam a violência. E foi justamente no período do governo Lula, aquele mesmo governo tantas vezes chamado de comunista (por pessoas que nem mesmo sabem o significado e propagam aos quatros ventos) que, enquanto andava em um supermercado, me dei conta da fartura iminente que vivíamos, ao ver carrinhos cheios (empurrados por pessoas de baixo poder aquisitivo), utilizando-se de produtos que no momento começa a se tornar inacessível até mesmo à classe média. Uma época de fartura que fazia do Brasil uma nação próspera e descente.
Cortar itens de primeira necessidade já é uma realidade no dia a dia do brasileiro (em sua esmagadora maioria); como administrar criteriosamenteo uso do ar condicionado, se privar do chuveiro elétrico e até mesmo substituiro carropelo transporte alternativo;em função dos constantes aumentos de combustível. Ainda que haja uma guerra em curso, todos sabemos que esta não justifica a crise que vivemos. É só mais um agravante que se soma aos desmandos desse governo, cujo único objetivo é prolongar sua estadia no Planaltoesatisfazer os delírios daqueles que (como ele), surfam nas ondas do poder; ignorando os problemas sociais do país e afogando-o em desmandos e irregularidades administrativas. Reflexos de um país mal administrado que sofre as consequências dos desmandos da gestão atual, baseada em escândalos e corrupções, indiferente a uma pobreza que agoniza dia a dia.
Tentar prever aonde tudo isso nos levará é antever as dificuldades que ainda teremos que enfrentar,caso essa política insana do governo Bolsonaro venha a ter continuidade. O que me preocupa não é a disputa que ocorrerá nas próximas eleições, mas o seu exército de manipuladores das mídias digitais, utilizando-se de meios ilícitos para difundir fake News;buscando fazer das eleições uma guerra digital com o intuito de manipular pessoas incapazes de enxergar um palmo a frente do próprio nariz.
Se Donald Trump, mesmo se utilizando de meios ilícitospara a reeleição,não obteve êxito; dificilmente o seu fã clube brasileiro de manobras maquiavélicas conseguirá. E para isso, o nordeste (que ele tanto menosprezou), será a carta na manga que ele jamais terá… e que certamente o derrotará!
Vânia Azevedo é professora.


