A mulher no exercício da sexualidade

* Adson Rocha

Sempre termino um Ozon com aquela dúvida mordaz: gostei ou não desse filme? Foi assim com quase todos, exceto pelos ótimos 5×2 (2004), Dans la maison (2012) e este Jeune et Jolie. A sensação de ‘estar faltando alguma coisa’ parece ter funcionado bem aqui. Na trama, a jovem, inteligente e belíssima Isabelle (Marine Vacth), estudante de letras na Sorbonne, decide, em segredo, pouco tempo depois de uma decepcionante primeira vez, fazer programas sexuais (isso mesmo, virar prostituta).

Apesar do tabu, não há rebuliço (a não ser nosso). Como bom provocateur, Ozon traz em seu filme tons carmesins a um tema geralmente debatido no preto-no-branco e ajuda a desconstruir as abordagens quase sempre moralizantes, estigmatizantes e rasas que fazem da mulher quando no exercício de sua sexualidade. Tema este que, apesar de não ser novo, é mais atual do que nunca – a incompreensão do público-comum sobre o que significa a Marchas das Vadias, por exemplo, não me deixa mentir.

A condução sutil e o tom melancólico escolhidos pelo diretor adicionam subjetividade à trama, que é igualmente reforçada pela feliz opção do Ozon em não escancarar as reais motivações por trás dos atos "condenáveis" da pequena Belle de Jour (é, tem muito do Buñuel aqui). Instintivamente (para não dizer repletos de julgamentos morais), repetimos, no decorrer do filme, uma pergunta feita pelo psiquiatra da família: Por que uma moça jovem, bonita e classe-média optaria por vender seu corpo? Mas a pergunta que devemos fazer é: E por que não? Ou esta: Por que isto nos choca tanto? Porque o inverso disto está naturalizado, enraizado em uma cultura que impõe papéis. E Isabelle é radical porque os rejeita. É uma garota explorando sua sexualidade, despindo-se de sua inocência, experimentando, testando e descobrindo seu corpo.

Por isso tenho medo do discurso de "ela preenchia um vazio existencial através do sexo", até porque, além de perigoso no sentido limitador e sexista, não se aplica ao filme: Isabelle, apesar de emblemática, não sentia culpa. Ela fodia com uma espécie de consciência, de determinação, ignorando, inclusive, os riscos inerentes à prática da prostituição. Prazer? Experiência? Dinheiro? Sua ambiguidade nos confunde o tempo inteiro. Tudo que sabemos é que sua percepção é diferente da imagem imaculada que se tem do desabrochar sexual feminino. Talvez por isso o filme soe tão agressivo para alguns, mas tão revelador e estimulante para outros.

Há uma fala interessante da Charlotte Rampling (em uma aparição digna de nota) que se alinha bastante ao que eu percebi do filme: "Se eu fosse mais corajosa, menos tímida… eu teria gostado de ter homens me pagando para fazer amor. Mas nunca ousei. Eu pensei, algumas vezes. Foi uma fantasia. Agora estou muito velha, seria eu a pagar.". Bingo.

Gostei muito dessa provocação do Ozon. Há muito ainda a ser examinado por trás da palavra "puta"; e ele joga a reflexão para nós, espectadores, não dando respostas concretas. Por isso seu filme é libertador e refrescante. Para além das razões acima, outro acerto: a escolha de Marine Vacth como protagonista. Sua beleza, apatia e sensualidade serviram perfeitamente para representar, com nuances, o estado dualístico da sua personagem. A trilha também é um deleite: Françoise Hardy, M83 e Crystal Castles. Filme fortemente recomendado, para ver e rever com muito gosto.

** Adson Rocha é cinéfilo

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