A samambaia de Gilton Lobo

Excesso d plástico no mundo

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O amigo Gilton Lobo pendurou uma samambaia de plástico na varanda. Logo ele, domador de melodias, um poeta de gasturas e unhas engasturadas, enganchadas nas cordas da viola velha.
Penso na samambaia de Gilton e vislumbro garrafas pet no fundo do mar. Há excesso de plástico no mundo. Há plástico nos lixões, no bucho das baleias, no peito duro das mulheres com mais de 30 anos de praia e ombros coloridos pelo sol.
O desmatamento da Amazônia faz fumaça. Presidente eleito, com malas prontas, a fim de tomar parte numa Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP27), rumo ao Egito, Lula assumiu um compromisso explícito com a defesa do meio ambiente, cristalizado na adesão da ex-ministra Marina Silva a seu projeto eleitoral. Lá, ele certamente fará a promessa de manter a floresta em pé, aliando preservação e desenvolvimento, sem fazer caso da samambaia de Gilton. Esta não arde nos olhos e na consciência de ninguém.
A samambaia de Gilton deveria tirar o sono do presidente, no entanto. De Lula e de toda a gente. Ali, num caqueiro sem terra, onde a vida poderia arrebentar em exuberância verde, vingou o pigmento, o artefato industrial. Por causa das flores de plástico, dos canudos, das bolsas descartáveis oferecidas nos supermercados, a artesania sucumbe, logo não haverá mais papel de pão para o rabisco de um bilhete impiedoso, como no samba doído de Jorge Aragão.
Bato à porta do amigo, certo de encontrar boa conversa e um trago generoso, antes de pegar o caminho da roça. Mas a samambaia de Gilton grita securas, infertilidades, zombeteira. Ela comenta sobre as garrafas de Coca Cola, emporcalhando o fundo do mar até o fim dos tempos. E ainda me sugere uma selfie.

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