Abordagem Social amplia acesso a direitos e fortalece atendimento às pessoas em situação de rua

Enquanto a maior parte da cidade encerra a rotina, equipes da rede de proteção social de Aracaju iniciam uma jornada para localizar e atender pessoas em situação de rua. A ação é realizada pela Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal da Família e da Assistência Social (Semfas), através da equipe de Abordagem Social. O serviço atua diretamente nos territórios para identificar pessoas em situação de rua, compreender suas necessidades e construir, junto com cada usuário, possibilidades de acesso à rede de proteção social.
O trabalho começa pelo diálogo. Antes de qualquer encaminhamento, os profissionais procuram conhecer a história de cada pessoa, saber há quanto tempo está em situação de rua, identificar possíveis vínculos familiares, verificar a documentação e compreender quais demandas precisam ser encaminhadas aos serviços públicos.
O primeiro atendimento foi de um usuário que já possuía vínculo com a equipe. A principal demanda estava relacionada à documentação. Os profissionais conseguiram avançar na obtenção da certidão de nascimento, um dos primeiros passos para que ele possa providenciar outros documentos e, posteriormente, ter avaliadas as possibilidades de acesso a benefícios assistenciais.
Primeiro, ouvir – A escuta qualificada é uma das principais ferramentas utilizadas pelos profissionais. Segundo o educador social Diego Carneiro, a primeira demanda apresentada pelo usuário nem sempre corresponde à necessidade mais urgente.
“Você tem que identificar, porque às vezes a necessidade é mais do que um documento. E começa por ouvir. Se você não ouve bem a pessoa, ela não dá a informação necessária. Você precisa analisar realmente os casos para entender a necessidade, os caminhos e os fluxos”, destacou Diego.
A demanda pode envolver documentação, acesso a benefício, atendimento de saúde, acolhimento institucional ou outras necessidades identificadas durante a abordagem. A partir da escuta, os profissionais avaliam quais serviços da rede devem ser acionados.
A atuação pode envolver diferentes áreas, como saúde, educação e assistência social, além de outros órgãos públicos, de acordo com a situação encontrada.
Depois das primeiras abordagens, a equipe seguiu para uma busca ativa na Orla da Atalaia. Lá, quatro pessoas foram encontradas, entre elas dois migrantes. Nenhuma delas tinha vínculo anterior com a equipe. Para esses usuários, começava ali uma nova etapa: a construção de uma relação de confiança.
“Chegamos, fizemos a busca ativa, encontramos esses usuários, conversamos e procuramos saber há quanto tempo estão na rua e qual seria a demanda deles”, contou a educadora social Ana Lenierica.
A aproximação inicial nem sempre é simples. Os profissionais precisam respeitar o tempo de cada pessoa para estabelecer uma conversa e conquistar confiança. A partir do primeiro contato, são levantadas informações sobre documentação, tempo de permanência nas ruas, vínculos familiares, acesso a benefícios e outras demandas.
“Eu fiz a escuta especializada, colhendo os dados e as informações necessárias para que a gente possa dar andamento às demandas”, explicou Ana.
Do desejo ao encaminhamento – Entre os atendimentos realizados naquela noite estava o do senhor Edvan Santos. Durante a conversa, ele manifestou o desejo de buscar uma instituição de recuperação. A partir disso, a equipe passou a reunir as informações necessárias e a estabelecer a conexão com o serviço indicado.
“Fizemos a busca ativa e encontramos o senhor Edvan. Ele expressou que tinha necessidade de ir para uma casa de recuperação. Então estamos fazendo a vinculação, colhendo os dados para fazer a ponte entre a casa de recuperação e ele”, relatou o educador social Juliano Gonzaga.
Após o contato com a instituição, a equipe retorna ao território para orientar o usuário sobre os próximos passos e acompanhar o encaminhamento. O caso mostra como diferentes demandas podem surgir durante uma mesma noite e exigir respostas específicas.
Apesar de acontecer diretamente nas ruas, a atuação da equipe é planejada. Antes das saídas, os profissionais realizam estudos de caso para conhecer situações que podem exigir atenção específica e definir estratégias de abordagem.
Durante as ações, também são observadas ocorrências recorrentes que podem indicar outras violações de direitos e demandar articulação com diferentes serviços.
As abordagens também permitem identificar situações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas e os impactos que esse consumo pode provocar na vida dos usuários.
A partir dessas informações, os profissionais podem avaliar a necessidade de articulação com a rede de saúde e outras políticas públicas. O objetivo, porém, não é apenas identificar o uso de uma substância, mas compreender o contexto em que a pessoa está inserida, seus vínculos, sua trajetória e as circunstâncias relacionadas à situação de rua.
O respeito à autonomia é outro princípio presente no trabalho. Nem sempre o usuário aceita imediatamente o acolhimento ou o encaminhamento oferecido. Nesses casos, os profissionais procuram manter o vínculo e continuar o acompanhamento.
Na prática, isso significa que uma certidão de nascimento pode representar um avanço. Uma conversa também. A identificação de uma demanda, o acesso a um benefício, um encaminhamento para a saúde ou a manifestação do desejo de buscar acolhimento são etapas que podem contribuir para a reconstrução de vínculos com a rede de proteção.
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