Academia de Poetas Ruins

Nas mais tristes bibliotecas.

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Penso em fundar uma Academia de Poetas Ruins. Candidatos ao esquecimento, não faltam. Há por aí uma multidão de parnasianos perdidos no tempo, sem rumo na vida, nome e sobrenome na capa dos livros, amigos de alimentar as traças com adjetivos supérfluos e rimas enjoadas.
Uma vez fundada a associação beletrista, cumpre-se dar posse a um presidente digno, à altura do cargo. Para estar à frente da Academia dos Poetas Ruins não basta ao eleito ter acesso às altas rodas, meter as fuças em coluna social. Nada disso. Aqui, o compadrio não abre portas, escancaradas de antemão. Vale a obra, somente, mais nada.
Tenho nomes em mente. Todos, sem exceção, conquistaram relativo prestígio em outras áreas de atuação, por força de competência ou dos joelhos ralados. A vaidade sob as vestes de versos chinfrins, no entanto, sussurra promessas, feito a mosca azul cantada por Machado de Assis. Poeta, sim, ele sonha, os olhos vidrados nas asas de prata do inseto. Poeta, ainda que de meia pataca.
Quase cedo à tentação de antecipar os eventos, dando posse à presidência e à mesa diretora da Academia dos Poetas Ruins por intermédio de reles artigo publicado em periódico diário, alheio à liturgia da nomeação, sob o risco de prejudicar os rapapés do ato de posse. Devagar com o andor, nada de atropelos. Antes de tudo, convém sacudir a poeira adormecida sobre o encalhe de tiragem reduzida, prevenir os ácaros nas mais tristes bibliotecas.

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